Vamos falar sobre a depressão masculina?

Se procurar tratamento psicológico ainda é tabu, atitude confundida com fraqueza e desdenhada com argumentos do tipo por que vou pagar alguém para me ouvir?, e que carrega o preconceito contra os problemas mentais, não sou louco, como se o sofrimento fosse sintoma de doença, a cultura machista é ainda mais cruel com os homens, impondo-lhes silêncio sobre suas angústias.

Afinal, homem não chora, homem é forte e deve corresponder às expectativas de um estereótipo que ignora necessidades naturais. Aos homens, não é dado o direito de se mostrar frágil, inseguro e carente, e ai daquele que desrespeita o código, acaba ironizado pelo amigo que está se esforçando ao máximo para não desmoronar.

As questões culturais e sociais que pressionam os homens determinam algumas diferenças na manifestação dos sintomas de depressão, o que pode mascarar o problema. Muitas pessoas têm dificuldade de avaliar as próprias emoções e nomeá-las, e isto vale principalmente para os homens, que não são estimulados a falar de sentimentos desde a infância, ou, em muitos casos, se acostumam a ter seus problemas resolvidos pelos adultos com comida, presentes ou qualquer outra estratégia que ignora o que eles realmente precisam, como falar sobre o que incomoda. E assim o menino cresce engolindo o choro e aprendendo a lidar com as emoções com comida, internet, compras, álcool, drogas, sexo, jogo.

A depressão nos homens manifesta-se por mudanças bruscas de comportamento, como irritabilidade e raiva, em lugar da tristeza, com reclamações sobre o trabalho, a vida afetiva e familiar; somatização, manifestada por queixas de cansaço, de dores físicas (de cabeça, no peito, nas costas) e incômodos digestivos, que os levam a vários profissionais da saúde, em busca de diagnóstico e tratamento; alterações de peso, geralmente apontando para a perda, por diminuição de apetite; ingestão excessiva de álcool e/ou drogas lícitas (incluindo remédios) e ilícitas, uma forma de automedicação; afastamento de atividades antes prazerosas e isolamento; alterações no sono e dificuldade de concentração; e o sintoma mais grave, a ideação suicida, que provoca mais mortes autoinfligidas em homens do que em mulheres.

Além dos motivos pessoais, como fases de crise financeira ou profissional, perda de emprego ou fim de relacionamento amoroso, luto, a solidão é um gatilho para a depressão. Nos tempos pós-modernos, de redes sociais, aplicativos de relacionamentos e tantas possibilidades de interação, as pessoas parecem cada vez mais solitárias. Os motivos para isso ocorrer são vários, entre eles, o fato de o indivíduo não se sentir compreendido e aceito, o que pode lhe dar a sensação de não-pertencimento e fazê-lo se isolar socialmente, provocando-lhe emoções como angústia e tristeza. E a tristeza, quando se demora, vai aumentado e se transforma em depressão.

Depressão causa profundo sofrimento e compromete a qualidade de vida das milhares de pessoas que sofrem desse transtorno. Ela rouba a vontade de viver e a esperança, pinta o mundo de cinza, produz sensação de inutilidade e confusão. E o preconceito e o desconhecimento de sua gravidade atingem os homens. Devemos estar atentos ao jovem, ao homem, que, apesar de não confessar, emite pequenos sinais de que algo não está bem.

Imagem de capa: Themaln/shutterstock

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Maria Cristina Ramos Britto
Psicóloga com especialização em terapia cognitivo-comportamental, trabalha com obesidade, compulsão alimentar e outras compulsões, depressão, transtornos de ansiedade e tudo o mais que provoca sofrimento psíquico. Acredita que a terapia tem por objetivo possibilitar que as pessoas sejam mais conscientes de si mesmas e felizes. Atende no Rio de Janeiro. CRP 05/34753. Contatos através do blog Saúde Mente e Corpo.

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