Tome cuidado com os agiotas do coração!

Não quero que o amor seja a minha salvação.

A gente só dá o que pode, a gente só gasta o que tem. Amor com empréstimo… não sei.

Não quero que o amor chegue para mim na fragilidade, me encontre desprevenida, me pegue no colo, me limpe as lágrimas, me dê uma luz num momento de escuridão.

Não quero que o amor seja a minha salvação.

Não quero um amor que veja a minha fraqueza e a queira e por causa dela encontre um canto no meu coração, um canto mal arrumado, inflamado de outras estórias.

Não quero alguém que surja dizendo que não quer muito, que se sustenta com minhas migalhas e vai ficando por perto, vai se apoiando na minha falta de energia e devagar vai querendo mais, vai exigindo mais, vai me exigindo o amor que eu não estava pronta para dar.

Não quero um ombro para me apoiar, um lenço no momento devido, um ouvido que parece disposto a escutar tudo, essas boas ações, mas cheias de segundas intenções. Acompanhando meus farrapos e esperando que eu renasça na palma daquelas mãos.

Desconfio de quem queira transformar minha merda humana em amor. De quem cria laços com os meus fracassos e quando eu estiver bem, ficará parecendo que selamos um contrato, estarei em dívida de amor com esse ser tão bondoso que ficou ao meu lado nos piores momentos.

Desconfio de quem chega aceitando meu mínimo, o meu pouco entusiasmo, de quem vê no meu momento de fraqueza e solidão uma oportunidade, uma chance de conquistar meu coração.

Fica parecendo amor gratuito, genuíno, ‘que lindo, me vê na pior e me ama assim mesmo!’. Mas pode ser um agiota do coração, com um contrato diferenciado, as prestações começam mais tarde, mas os juros ficam acumulados.

E cria-se o vício, como num jogo de azar, ele se torna a minha danação e salvação. Me diminui para depois me amar. Me gosta pequena, para assim me mostrar a grandeza do seu sentimento. Me joga no chão para depois me dar a mão. E eu me sinto até agradecida! Nem sempre a gente vê…

Mas eu desconfio de quem chega me amando quando estou na merda. Como o amor pode ser mútuo, como pode ser troca boa, quando uma das partes não tem nada para oferecer?

Bom mesmo é quem se apaixona pelo que em mim é força, é brilho, é espontâneo. Quando as minhas portas estão abertas, meu sorriso fácil, minha alma arejada, minha vontade de viver e amar restaurada. Quem chega não para construir minha autoestima, porque esta já fica bem sozinha. Quem chega para compartilhar e somar.

Nos meus momentos frágeis talvez eu não precise de um novo amor, talvez eu não precise desesperadamente sair da solidão, talvez eu só precise de um bom amigo, um travesseiro e me dar um tempo.

Tem horas na vida que a gente não precisa amar, a gente só precisa meditar.

Quando for amar, queira entrar de olhos abertos e de coração restaurado, para depois plenamente mergulhar dos pés à cabeça.

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Clara Baccarin
Clara Baccarin é poeta, escritora e tradutora. Autora do romance Castelos Tropicais (Ed. Chiado, 2015), e do livro de poemas Instruções para Lavar a Alma (Ed. Sempiterno, 2016). É uma contadora de histórias que adora poetizar o mundo. Escreve por amor e rebeldia: desconstruindo verdades, brincando com as palavras e ressignificando a vida.



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