Sobre ler pensamentos, por Diego Caroli Orcajo

As pessoas acreditam que ter a capacidade de ler mentes lhes traria uma vida muito mais feliz do que andam tendo, visto que alguns dos maiores temores do indivíduo pós-moderno são os de ser enganado, traído e abandonado.

Já ouvi diversas vezes alguém dizendo que seria interessante ler os pensamentos das pessoas na balada, visto que se saberia com as quais deveria iniciar interações. Também ouvi em referência a entrevistas de emprego, já que poderia alterar comportamentos não muito bem recebidos pelo entrevistador, ampliando as chances de contratação. Enfim, situações específicas e hipotéticas, nas quais posso dizer que eu também adoraria dominar tal arte.

Agora voltemos ao mundo real. Será mesmo que ler pensamentos seria interessante? Se houvesse um botão liga e desliga de repente sim, afinal mataríamos algumas curiosidades, porém e se ocorresse em um contínuo?

Certa vez Bertrand Russell disse: “Se a todos fosse dado o poder mágico de ler os pensamentos dos outros, suponho que o primeiro resultado seria o desaparecimento de toda a amizade”. E é dessa direção que partiremos.

Você acabou de ser retirado da barriga de sua mãe. O trabalho de parto foi um pouco longo, atrasando o término do expediente dos profissionais envolvidos. Então, logo de início, seria exposto a pensamentos não muito sutis por parte daqueles os quais atrasou o passeio de sábado à noite.

Posteriormente, quando estivesse nos braços de seus pais, veria se passar pela mente deles tudo aquilo que houveram idealizado e comparando com o que de fato você o é. Além do mais, ter um filho frequentemente gera algumas crises existenciais episódicas, nas quais teria de “saber” coisas como: “Tive que parar x projetos por conta dessa gestação”; “Essa criança só dá trabalho”, e daí por diante.

Todo amor anda de mãos dadas com boas doses de ódio, que em nossa sociedade têm suas manifestações suprimidas, gerando sentimentos de culpa constantes naquele que os sente. Em suma, todo relacionamento humano é e sempre será ambivalente, porém, de repente não estejamos prontos para ter consciência dos aspectos hostis existentes em nossas interações.

Sou da opinião de que não é nada provável que a humanidade possa existir na ausência de grandes ilusões, dentre as quais sem sombras de dúvidas cabe incluir a ilusão do amor incondicional.

Segundo Nietzsche: “A verdadeira questão é: quanta verdade consigo suportar”. E aí, você se considera forte o bastante para saber tudo que pensam a seu respeito?

Diego Caroli Orcajo. Águas de Lindóia – SP.

diego_caroli@hotmail.com

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Diego Caroli Orcajo
Desde muito cedo interessado por todas aquelas histórias que mais ninguém desejava ouvir, sempre soube que todos poderiam ir muito mais longe do que acreditavam ser possível. Psicólogo clínico, atende em São Bernardo do Campo e São Paulo. Para mais informações e agendamentos entre em contato pelo email: diego_caroli@hotmail.com



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