Sobre a importância de confiar

Certo dia, quando na adolescência, me juntei com algumas amigas e unidas decidimos fechar os olhos em busca de nossa calma interior e assim ficamos por um longo tempo sem pensar em nada.

E para minha surpresa depois do nada, do silêncio que me tomou a mente, um pensamento manso se anunciou. Nele alguém me trazia um pequeno vaso com uma planta e dizia que ele era para mim. Que a planta deveria ser cuidada e nutrida por mim.

No mesmo instante em que o pensamento me tocou compreendi a sua grandeza. Ele tinha suas raízes fincadas no confiar.

Nem sempre temos conosco a noção de como é importante confiar em nós e nos que amamos. Naquele momento não me achava apta para cuidar de coisa alguma, mas houve um pensamento que disse o contrário. De forma silenciosa ele me fez compreender que a minha capacidade se estendia para além de mim e de meus problemas naquele momento.

Há alguns meses, quando passei os olhos por um filme da década de 80 na tv, me lembrei desse pensamento. No filme a personagem principal, nas cenas finais, recebe em sua loja um menino que junto da família realiza o desejo de conhecer alguns lugares antes de sucumbir ao câncer, algo que efetivamente não acontece no filme.

Ao saber da doença da criança a mulher diz aos pais que ele pode ficar com o filhote de cachorro dela, o qual o menino tanto gostou. A mãe intervém falando que ele não poderá cuidar, pois tem pouco tempo de vida, e nesse momento a protagonista insiste dizendo que ele certamente será capaz de cuidar do cachorro.

Esse filme, assim como o pensamento que se anunciou em mim, me lembrou que existem muitas formas de dizermos a nós e aos que amamos que confiamos na capacidade nossa e na deles de superar e obter êxito em uma determinada situação.

E ontem, ao passear as vistas pelas ruas, vendo um velhinho curvado levando pelas mãos o neto, o conceito no confiar brilhou-me mais uma vez. Vendo aquele homem que andava feliz pelas calçadas, servindo de esteio para a pequena criança, de imediato pensei nos pais daquele bebê, em como eram felizes ao olharem para aquele homem tão idoso e confiarem a ele os cuidados do neto. Em uma fase em que os mais jovens acreditam que os idosos só devem ser cuidados, existem aqueles que passam por cima de ideias arraigadas e delegam à terceira idade o cuidar. E aos serem acreditados na velhice, idosos se esquecem de imediato do que dizem os médicos sobre as costas e se curvam guiando crianças rumo aos seus primeiros passos. Ao se verem acreditados eles despertam em si o poder de ignorar pensamentos fatalistas sobre tombos em calçadas desniveladas e rasgam o mundo dando o melhor de si.

O poder em crer enaltece as capacidades que nos dizem que podemos transcender e efetivamente realizar.

Aquela criança era uma semente, era como a muda do vaso dos meus pensamentos. Era a materialização das boas possibilidades.

E, pensando em nós como agentes criadores dentro das possibilidades do confiar, é impossível negar que muitas vezes temos nas mãos a opção de dizer aos que nos cercam, através de atos que delegam, que eles são capazes, que eles podem muito mais do que imaginam, contudo nem sempre o fazemos.

Novos planos, novos caminhos, novos desafios e possibilidades exigem que confiemos.

Olhando por todos os lados podemos afirmar que não só já fomos omissos no quesito acreditar em algum momento, como também já fomos vítimas de alguma descrença emancipada através de um “isso não vai dar certo” vindo de pessoas próximas. E, quando ouvimos uma frase como essa, antes de largarmos mão dos anseios, o melhor que temos a fazer é silenciar o mundo para ouvir aquele pensamento que em nós baixinho sussurra: “Eu acredito, você é capaz”.

Quando, em contraponto, a ideia do novo nos chegar pelos outros, sejam esses outros pais idosos, filhos jovens, amigos empreendedores ou colegas visionários, que sejamos nós os primeiros a dizer: “Eu acredito no seu êxito”. E que nós possamos ir além, não só falando, mas dando também o passo inicial no sentido de demonstrarmos efetivamente essa nossa capacidade em crer. A confiança plantada em boas terras cria raízes profundas e os frutos são mágicos, tão mágicos que nós em nossa capacidade limitada de olhar para frente, não conseguimos mensurar a beleza de seu alcance.

Para salvar vidas, para salvar anseios, para salvar sonhos, não precisamos atravessar continentes. Para isso basta apenas que nos deixemos habitar pela beleza que mora no confiar. Que possamos dizer aos nossos avós que confiamos a eles a capacidade de embalar nossos filhos nos braços, propondo efetivamente isso. Que possamos dizer aos nossos pais que confiamos a eles a possibilidade de fazer diferente, dando a eles chances efetivas. Que possamos falar aos nossos filhos que confiamos a eles a capacidade de nutrir e de fazer florescer no mundo novas possibilidades, entregando-lhes o poder de decidir e de concluir com as próprias mãos. Que possamos dizer a nós mesmos que somos capazes não de um, mas de incontáveis passos à frente, impulsionando o nosso corpo de forma corajosa no sentido desejado.

Que a nossa vida possa ser tocada por uma tempestade de situações que façam florescer em nós e nos que amamos a efetiva possibilidade de provar que tudo podemos quando tocados pela mágica capacidade de confiar.

“Palavras são mágicas, são como encantamentos sublimes que nos levam para onde quisermos, seja esse onde um lugar ou uma pessoa”. Acompanhe a autora no Facebook pela sua comunidade Vanelli Doratioto – Alcova Moderna.

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Vanelli Doratioto
Vanelli Doratioto é uma escritora paulista, amante de museus, livros e pinturas que se deixa encantar facilmente pelo que há de mais genuíno nas pessoas. Ela acredita que palavras são mágicas, que através delas pode trazer pessoas, conceitos e lugares para bem pertinho do coração.



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