Será que “ser ou não ser” ainda é a questão?

Hoje eu acordei meio parede sem acabamento, cinza, acimentada, rígida e áspera, como uma dessas paredes em construção. Ao meu lado outras paredes, quase todas em processo, outras deterioradas, porém, todas imóveis. Abaixo de mim mais paredes, acima também, um peso sobre outro, concreto, físico, material. Haja força para suportar!

Senti saudade de quando acreditei que era massa de modelar, macia, colorida, maleável. Eu era uma artista! Criava-me flor, pássaro, e até menina, me tornava o sonho lúdico em que vivia, misturava-me com outras cores e adquiria minha própria cor, e mesmo que me pisassem, esmagassem, perfurassem, eu sabia que seria capaz de voltar a ser flor, ou qualquer outra coisa que eu imaginasse; sonhar era livre.

Fui preparada dentro de uma betoneira, a ilusão de maleabilidade vinha da mistura ali feita, era cimento, água e areia. Girava, ficava tonta, fantasiava; o mundo lá fora era novo, era outro, não senti o processo acontecer, apenas dormi e acordei parede. Nada como dizem por aí, de sonhar voando e cair da cama, era pior, bem pior, algo como dormir viva, e acordar dormindo, só que pra sempre.

Hoje eu acordei meio parede, que é quase muro; acordei presa em mim mesma, seca, esgotada, desejando alguma ordem de demolição, desejando desmoronar, mesmo sabendo que isso comprometeria toda essa estrutura da qual eu nunca quis fazer parte, mesmo sabendo que isso afetaria outras paredes, que talvez, também quisessem ser outra coisa. Voltaríamos ao pó, nos misturaríamos a terra, e nos conduziríamos com o vento.

Descubro então que mesmo petrificada, os meus sonhos voam, eles vivem sob essa névoa empoeirada dessa construção morta. Os sonhos ainda vivem, e isso me traz a tranquilidade de acreditar no movimento.

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Hulle Horranna
Nasceu em Jacobina, também conhecida como cidade do ouro, chapada diamantina, desde pequena observava o mundo com lentes incomuns e criativas, a arte lhe inspirou em diversos seguimentos no decorrer do seu aprendizado, contribuindo para a construção se uma personalidade sensível e extremamente critica. Atriz, poeta, e ilustradora por ocasião. Participou da Antologia Fragmentos com 10 poemas de sua autoria, pretende lançar um livro em breve, mas, enquanto isso dispara suas letras, junto a um amontoado de sentimentos em uma página do facebook chamada Zona de Conforto.



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