Segundas chances

Por Maria Cristina Ramos Britto

Quem nunca se pegou pensando que tudo poderia ser diferente se tivesse feito outras escolhas? Estes momentos de arrependimento, de ter vontade de voltar atrás e apagar uma frase dita num momento de raiva ou ter decidido por outro caminho são normais. Porque no presente pode-se avaliar o passado, o tempo dá distanciamento, a emoção experimentada então já diminuiu. É natural ter a compreensão tardia, mas, na realidade, naquele momento, talvez tenha sido a atitude possível, de acordo com a maturidade e os recursos emocionais da pessoa.

É razoável entender que se fez o melhor possível na situação, e que provavelmente não se estivesse preparado para agir de outra maneira. O problema é quando o indivíduo se arrepende e não se sente capaz de sair de uma situação que provoca sofrimento, seja um relacionamento ou uma profissão. Há várias explicações, como temor do desconhecido ou de um novo fracasso, e o pensamento: Se errei antes, quem garante que acertarei agora? Dessa forma, a pessoa se acomoda, tentando acreditar que talvez as coisas se resolvam, preferindo não apostar no que considera um risco.

Se o sujeito subestima a si mesmo ou busca a perfeição nunca estará satisfeito com as pequenas vitórias. O arrependimento não pode se tornar constante, uma sombra que impede de enxergar as novas oportunidades que a vida oferece. Usar a lição do fracasso para não repetir o erro é mais indicado do que lastimá-lo indefinidamente e se apegar a ele como desculpa para não mudar. Conformar-se com o que não traz sorriso ao rosto e calor ao coração é uma traição a si mesmo e injusto para com as pessoas que compartilham sua vida.

Pensamentos negativos de que se é incapaz ou impotente aumentam o sofrimento e podem levar da tristeza à depressão. Tudo piora se o indivíduo fica preso ao que passou e deixa de viver o presente. Lamentar o que se fez ou o que se deixou de fazer pode se tornar doença. Amargura, arrependimento, culpa são emoções tóxicas que envenenam a alma. Experimentar insatisfação, angústia e frustração quando um projeto fracassa é natural, mas ficar preso a estas emoções é paralisante e impede que se pense em formas de resolver a situação ou, ao menos, superá-la da melhor forma possível.

Aceitar o que não pode ser modificado, porque está fora do controle da pessoa, assimilar os erros, para não repeti-los no futuro, tirando dos mesmos importantes lições de vida, buscar as evidências de que não se pode fazer diferente nem tentar algo novo, por incapacidade ou falta de oportunidade, são atitudes positivas que tiram do imobilismo, questionam crenças de desesperança e possibilitam transformação significativa da qualidade de vida. O autoconhecimento, com a descoberta de si mesmo e do próprio potencial, é a chave para uma existência plena, ampliando a visão de mundo e possibilitando segundas chances.

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Maria Cristina Ramos Britto
Psicóloga com especialização em terapia cognitivo-comportamental, trabalha com obesidade, compulsão alimentar e outras compulsões, depressão, transtornos de ansiedade e tudo o mais que provoca sofrimento psíquico. Acredita que a terapia tem por objetivo possibilitar que as pessoas sejam mais conscientes de si mesmas e felizes. Atende no Rio de Janeiro. CRP 05/34753. Contatos através do blog Saúde Mente e Corpo.



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