Se o amor da minha vida não chegar

Por Marcela Picanço

Se o amor da minha vida não chegar, vou publicar todos os meus casos de amor. Em de-ta-lhes. E vão ser vários. Vou chorar pitangas com as amigas, fazer brigadeiro, depois vou à academia e pintar o cabelo de loiro. Vou odiar tanto a cagada que o cabeleireiro fez, que nem vai dar tempo de lembrar quem era esse otário que me fez chorar. Vou fazer hidratação e vou voltar a ter meu cabelo castanho de sempre, só que com um pouco menos de brilho, porque não há cabelo que sustente uma água oxigenada. Vou comprar batons de várias cores chamativas e misturar com roupas de cores diferentes. Até azul eu vou comprar. Vai que eu resolvo me fantasiar de alguma coisa…

Vou alugar um apartamento só meu. E vou pintar uma das paredes de vermelho. Vou começar a decorar pelos quadros. Vão ser fotos do Oprisco por todos os lados. E fotos das minhas diversões ao longo da vida. Eu vou ter uma cama de casal para poder levar quem eu quiser. E o lençol tem que ser branco. Não vou precisar decidir se vou casar ou comprar uma bicicleta. Eu vou comprar uma bicicleta e pronto. Minha casa sempre vai ter gente, mas, alguns dias, eu vou preferir ficar sozinha lendo um livro e tomando um bom vinho. Em outras noites, vou tomar leite com Nescau, vestida com meu casaco de lã. Vou ver “Como perder um homem em 10 dias” pela décima vez e dormir antes de chegar ao final, que é a parte mais previsível. Outras noites, eu vou ficar no redbull, porque vou ter alguns textos para entregar e outros para decorar. Vou chegar sempre por volta das 23h, porque eu estarei envolvida com vários projetos artísticos e sempre com várias pessoas. A noite é feita para aqueles que ainda não encontraram o amor da vida, então, eles vão distribuir esse amor com um monte de gente por aí. Vou continuar tendo meus inúmeros casinhos, mas sempre vai ter um que tira minha noite de sono, seja rolando na cama ou porque estou desabafando sobre ele com uma amiga ou com o Word. Depois vai passar e eu vou me apaixonar de novo e de novo. E eu não vou ter problema em conhecer outro cara incrível em uma viagem que eu fizer sozinha, porque meu coração vai ser só meu.

Eu vou viajar quinta à noite, sem avisar ninguém (só meu chefe), porque um amigo conseguiu alugar uma casa aqui pertinho. Eu vou juntar grana, fazer um mochilão pela América Latina, porque Europa já está batido, por mais que eu nunca tenha conhecido a Europa. Eu vou querer me mudar pra Ásia quando eu conhecer o cara dos meus sonhos que vai se mudar pra lá. Vou fazer todos os planos, até que um dia, sem querer, eu vou ter uma noite maravilhosa com outro rapaz e aí a Ásia pode ficar para depois.

Todos os dias vão ser diferentes, porque nunca fui muito de rotina. Sexta, eu vou chamar minhas amigas pra fazer uma comida diferente em casa, enquanto a gente espera a cerveja gelar. Domingo, eu vou fazer um almoço para aqueles de quem eu mais gosto, depois vou ao cinema assistir a um filme cult que eu não entenda nada. Em outro fim de semana, eu vou sair para dançar, tomar uns drinks diferentes e voltar para casa sozinha, mas com o coração cheio, porque sair só para dançar é uma das coisas que me deixam mais completa. Por mais que nenhum cara acredite, uma das coisas que as mulheres mais gostam de fazer é sair SÓ para dançar. A gente gosta de se sentir bonita, viva, feliz e desejada, mas isso não quer dizer que queremos sair de lá com um cara qualquer. Um cara qualquer não substitui a felicidade de dormir sozinha até meio dia, porque passou a noite dançando suas músicas preferidas junto com suas amigas preferidas. Isso também não quer dizer que a gente não ligue para sexo. Até porque eu ligo bastante. Mas entre sexo meia-boca e uma boa noitada suando a camiseta, eu fico com a segunda opção. É muito bom se sentir desejada, mas, ao mesmo tempo, não sentir desejo por ninguém.

Em outros fins de semana, eu vou para a praia cedinho, vou fazer suco verde e fingir para mim mesma que agora eu virei saudável. E, já que um grupo de amigos legais é tudo de que uma pessoa solteira precisa, é com eles que vou dividir meus dias, por mais que todos comecem a se casar. Vou estudar fora. Em qualquer lugar em que pintar uma oportunidade de fazer arte. Depois vou passar um tempo morando em Sâo Francisco, porque dizem que lá é a minha cara – eu quero me entupir de conhecimento, cerveja e de pessoas que aquecem o coração.

Enfim, vou descobrir que de nada vale encontrar o amor da vida se eu não viver o melhor da vida comigo mesma. Então, se ele não chegar, eu vou viver minha vida como eu sempre vivi, sem esperar um “feliz para sempre”, mas investindo no “feliz agora”. Vai ter espaço para muito amor, por mais que eu me sinta sozinha em alguns dias, por mais que me olhem com cara de pena, por mais que achem que eu me envolva com várias pessoas para preencher esse vazio. Mas não tem vazio nenhum, é só muito amor para dar e pouca vida para ser desperdiçada.

E se, por um acaso, isso de amor da vida existir, eu vou saber quando ele chegar, porque eu não vou precisar abrir mão de nada disso.

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Marcela Picanço
Atriz, roteirista, formada em comunicação social e autora do Blog De Repente dá Certo. Pira em artes e tecnologia e acredita que as histórias são as coisas mais valiosas que temos.


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