Repare quão extraordinários são os defeitos!

Repare quão interessantes são as cenas extras dos filmes, os bastidores, os momentos descontraídos e desastrados, as risadas, as conversas, os sustos e os brancos.
Quando os personagens voltam a ser humanos.

É tão bom o que resta da massa do bolo, o arroz do fundo da panela, as rebarbas da pizza, os pedaços que sobram por não serem tão bonitos e apresentáveis mas fazem a felicidade de quem os percebe.

Que bonita é a decoração da casa que é mais viva do que simétrica, que cada móvel tem uma história, cada almofada, porta retrato, bibelô fazem lembrar um amigo, um momento, em que cada canto mostra mais vida, dança, conversas do que neuroses, do que regras de comportamento.

Que bom o lar que tem cheiro de gente, de comida, de sabonete, que tem plantas diferentes em vasos coloridos, do que aquele que quase se ouvem as moscas voando e se perdendo na limpeza das paredes e as taças de vinho ficam sepultadas em algum armário antigo.

Que lindas as pessoas que assumem suas assimetrias, seus cabelos doidos, ralos, brancos… Seus estilos, seus sotaques, seus gostos musicais, suas personalidades, suas fraquezas, suas forças.
Suas diferenças!

Que lindeza é ver um ser humano seguro de si, vestindo a roupa que se sente bem, independente de ser como manda o figurino de um lugar, de uma situação.

É tão bom ver a alegria de quem não tem vergonha de sorrir, mesmo sem dentes na boca, não tem vergonha de dançar, nadar, falar, de focar o olhar muito além do que os outros vão pensar.

Acho triste as perfeições, a mania de retalhar, de busca se encaixar e quase sem querer se esquecer.

Pra que photoshopar, camuflar, cortar rebarbas, endireitar, se muitas vezes o que faz a beleza de uma pessoa é justamente o nariz adunco, o sorriso torto, a timidez, ou a gargalhada escancarada, a pinta na testa, o mistério das olheiras, o jeito de puxar o R, o jeito de andar e olhar pela janela, o jeito de pensar o mundo?

Muitas vezes o que torna um lugar, uma pessoa e uma situação especiais é justamente aquilo que é inusitado, que é livre, que é ‘errado’, descompassado, descomplicado. O mico, o impróprio, o imprevisto, o resíduo.

No fundo, no fundo, todo mundo gosta de ver esses acontecimentos, esses defeitos, não para que possamos nos sentir superiores, e dar risada alheia, mas porque o nosso coração se sente aliviado e cheio de empatia ao ver que afinal existem outros seres humanos imperfeitos e feliz vivendo por aí.

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Clara Baccarin
Clara Baccarin é poeta, escritora e tradutora. Autora do romance Castelos Tropicais (Ed. Chiado, 2015), e do livro de poemas Instruções para Lavar a Alma (Ed. Sempiterno, 2016). É uma contadora de histórias que adora poetizar o mundo. Escreve por amor e rebeldia: desconstruindo verdades, brincando com as palavras e ressignificando a vida.



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