Regra número 1 da boa convivência: para subir o nível, desça do salto.

Não importa quanto dinheiro você tenha. Não interessa o quanto você estudou mais que os outros. Valem nada seu sobrenome famoso, seu cargo importante, sua cidadania estrangeira, seus parentes no governo ou seu foro privilegiado. No fim, somando tudo isso o resultado será nada. Está faltando é compaixão entre nós.

Sabe aquela história de inverter os papéis e se colocar no lugar do outro? Essa coisa que a gente chama de empatia, compreensão? Então. De nada adianta se, depois desse exercício de transferência, a gente não se compadece da situação alheia.

Sem compaixão, seguiremos sobrevoando a miséria que julgamos não ser nossa, fingindo seriedade, sem nada fazer a respeito. Tratar o outro como você gostaria de ser tratado se estivesse no lugar dele não é só uma questão de bom senso. É uma prova de decência.

Não é preciso doar toda a sua fortuna para a caridade, não. Mas seria bom um gestozinho nobre aqui, uma mãozinha na consciência ali. Coisa simples, sabe? Já viu como em todo canto há pessoas se achando melhores do que as outras? Sempre tão certas de ter herdado a sabedoria divina, saem por aí maltratando funcionários, prestadores de serviço e outras figuras em “condição inferior” com a única tarefa de desvalorizá-las, enquanto pontificam sua supremacia em clichês como “as oportunidades são iguais para todos”, “sou rico porque trabalhei mais” ou “só vagabundo pede esmola”, esticando até o limite o elástico da generalização.

Será assim mesmo? Eu tenho dúvidas. Grandes e dolorosas dúvidas latejando feito calo. Por exemplo: você já reparou como se comportam certos motoristas no trânsito em relação às pessoas que panfletam folhetos publicitários no semáforo? Se ainda não, eu conto como é: certos motoristas fecham a cara, o vidro e o tempo quando alguém do lado de fora lhes estende um panfleto comercial no semáforo. Isso é chato, feio e desumano. Não custa nada aceitar esse material de bom grado. Não para fazer valer o investimento que alguém fez nesse tipo de propaganda. É pela pessoa que está ali trabalhando.

Antes de argumentar que esses motoristas fecham o vidro por “questão de segurança”, pense. Você sabe muito bem o que significa “contexto”. Em geral, quem distribui folhetos promocionais nos semáforos o faz em horário comercial, à luz do dia. E você também sabe diferenciar uma pessoa “suspeita” de um trabalhador com um maço de papéis na mão distribuindo de carro em carro.

E tudo bem se você não vai comprar apartamento com dois dormitórios e varanda gourmet em ótima localização. Não importa se o que se está divulgando ali não lhe interessa. É só pegar o folheto! E se puder dizer “bom dia”, “boa tarde” e “obrigado” a quem lhe entregar esse material, tanto melhor. Repito. A pessoa está ali trabalhando!

Depois, em casa, você tira os folhetos do carro, joga no lixo reciclável e pronto! É tão simples! Claro que você não tem a obrigação de fazê-lo. Ninguém tem. Mas eu insisto: é tão simples!

Já ouvi dizerem por aí, assim, na maior, que a diferença entre quem está dentro dos carros e quem está fora, panfletando, é o grau de esforço anterior de cada um. Segundo essa generalização esdrúxula, quem está ali fora, sujeitando-se à humilhação imposta por alguns dos que estão dentro, é porque não estudou nem se esforçou o bastante. Típico raciocínio preconceituoso, simplista, superficial e boboca que, aos poucos, vai nos transformando em uma sociedade cínica e incapaz de pensar seus problemas.

As coisas nem sempre são tão simples assim, sabe? Nem sempre se trata do que muitos de nós se acostumaram a chamar de “vitimismo”, enfiando num mesmo balaio todos os cidadãos que, por algum motivo, “não deram certo na vida”.

Agora, e daí se o sujeito que entrega panfletos no semáforo estudou menos que a pessoa de dentro do carro? Isso os torna mesmo diferentes a ponto de um se achar melhor que o outro?

Só para constar, eu já fiz esse tipo de serviço. Distribuí folhetos no semáforo para divulgar um evento em 1994. E não estou me vitimizando, não. Eu estava na faculdade e o dinheiro que ganhei com aquilo na época foi providencial. Levei comigo para a lida o meu irmão caçula, que naquele tempo tinha 15 anos, e ele fez uma graninha também. O que ganhamos panfletando ajudou em nossa casa. Foi um trabalho honesto e que nos ensinou muito sobre a vida e sua gente. Acredite. Eu sei do que estou falando!

Tem gente dentro do carro que olha o panfleteiro como se tivesse acabado de tirá-lo do próprio nariz!

Tem gente que torna o mundo pior assim, aos pouquinhos, fingindo não perceber.

Tem gente que vai achar este texto um mimimi monumental, tão certa de que há coisa mais importante para discutir, tão convencida de que a nossa incapacidade para a empatia e a compaixão nada tem a ver com a intolerância que se espalha por todo canto, tão confortável em cima de seu salto alto.

Mas também tem gente que vai pensar um pouquinho no assunto. Eu agradeço por isso. GRAÇAS A DEUS, tem gente que ainda pensa. Pensemos juntos. Desçamos do salto. Subamos o nível. Está faltando compaixão aqui embaixo.

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André J. Gomes
Jornalista de formação, publicitário de ofício, professor por desafio e escritor por amor à causa.



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