Recuse rótulos heróicos

Você é forte, me acalma, traz uma paz…. Um pretenso elogio para quem o faz, uma condenação para quem recebe.

A princípio soa bonito ser forte, guerreiro, imbatível, desafiador. Mas, como tudo na vida, isso é momento e passa. E quando aceitamos esse rótulo, esse sobrenome, parece que automaticamente dispensamos o direito a fraquezas e dores. Os outros passam a nos enxergar como indestrutíveis, como uma referência, como conforto e proteção.  Podemos até ter um bocado de talento para isso, mas a verdade é que jamais seremos fortes o tempo inteiro. Vamos precisar de consolo muitas vezes na vida, e, quanto mais sustentarmos esse título com orgulho, mais pensarão que de nada necessitamos.

E o momento de pedir ajuda vai chegar. Aquele dia algo nos  acontece e não conseguimos lidar sozinhos com isso. E pedimos por socorro, mas então as pessoas ficam confusas e nos dizem: – Mas você é tão forte! – Como pode ficar assim? – Não te reconheço! – Ah, nem parece aquela pessoa que nós admiramos!

Não é assim? A frustração de se apresentar carente de consolo, retirar a armadura pesada e ter a coragem e fortalezas postas à prova. Então o rótulo se mostra desnecessário, inútil, inválido, posto que não há ser humano vivente que não precise de um colo, um ombro, um sorriso, um abraço, uma palavra de carinho algumas tantas vezes na vida.

Melhor seria destituir logo a fama no instante em que ela nasce. Já negar na partida: – Olhe, não sou isso tudo não, nem na sombra. Eu sinto medo, perco o chão, gaguejo, fico de boca seca, mãos suadas e coração a mil. Sou tão forte quanto você, mas certamente enfrento seus problemas com desempenho melhor do que enfrento os meus. E que vantagem há nisso?

Melhor aceitar que temos momentos insuperáveis de uma força incrível, mas tantos outros de total fragilidade e solidão.

Hoje em dia, depois de muito me explicar para provar que também mereço um conforto pelas desilusões da vida , quando alguém vem com o assunto de – você me acalma, como lida bem com as coisas, me oferece paz e tudo mais, eu ouço com gratidão, mas logo em seguida anuncio que sem qualquer ilusão, ainda me apresentarei frágil e fora dos eixos. Por fim, quem é quem nesta vida para trazer ou tirar a paz do outro?  Quem é o protegido e quem é o protetor.

Coragem mesmo, é conviver bem com as fragilidades.

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Emilia Freire
Administradora, dona de casa e da própria vida, gateira, escreve com muito prazer e pretende somente se (des)cobrir com palavras. As ditas, as escritas, as cantadas e até as caladas.



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