Receita (sem regras) para viver bem a vida

Para viver bem a vida, cerque-se do que interessa – pessoas, assuntos, programas. O resto elimine, que a boa vida, assim como a boa poesia, precisa de cortes. O menos é mais. E não há tempo a perder com o que não faz crescer.

Para viver bem a vida, flexibilize-se, não fale de verdades, fale de impressões, sensações e sentimentos. Mude de ideia. Conteste suas verdades, sempre. Ouça, esteja aberto a entender outros posicionamentos e opiniões, esteja aberto a perceber o que faz os olhos do outro brilharem e esteja aberto para virar a casaca, se de repente a camisa que o outro veste lhe parecer mais apropriada.

Multiplique-se, teste diferentes ritmos, realidades, histórias na sua própria pele. Não tenha medo de experimentar o que parece que vai caber e depois perceber que na verdade aquela roupa, aquela pessoa, aquela situação, não tinham nada a ver com o seu real estilo de encarar o mundo.

Tão importante quanto aprender e realizar é desaprender e desvencilhar.

Tenha a humildade de ser amplo, recomece quantas vezes for preciso.

Para viver bem a vida, desmistifique. Deixe de fazer com que temas como sexo, moral, felicidade e dinheiro virem ditadores deuses. Não se submeta, quebre as regras, interrompa os jogos, redistribua valores, tire alguns seres e coisas do palco e os jogue no depósito. Mude as importâncias. Da sua própria vida você é ator, diretor e roteirista. O coração é mais devagar, mas ele também se adapta aos novos modelos impostos pelo olhar.

Para viver bem a vida, dance no seu ritmo, seja um samba mesmo que todos à sua volta dancem rock. Resgate suas essências, aquelas vontades e verdades que andam se escondendo na urgência do desvairado cotidiano. Pare, olhe para dentro e respire um pouco a si mesmo.

Para viver bem a vida, perdoe-se! Aprenda a dar risada de suas próprias ignorâncias, fraquezas, desajustes, falhas. Perceba o erro, entenda-o e depois o abandone. Não fique ruminando suas imperfeições achando que assim elas se resolverão, que assim serão mais bem digeridas. Isso só faz amargar a memória e consequentemente a vida. Isso é auto tortura. E já é comprovado que a gente aprende mais com uma conversa franca consigo mesmo do que com repreensão.

Para viver bem a vida, cultive os momentos, as pessoas e os lugares que te fazem sorrir quase sem querer, que te afrouxam a alma do peso de existir. Que colocam na vida uma conotação de contemplação mais do que de exigência.

Para viver bem a vida, se dê uns mimos, se dê um tempo, se dê uma folga (às vezes de si mesmo), se dê uma poesia.

Para viver bem a vida seja você mesmo a sua melhor companhia.

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Clara Baccarin
Clara Baccarin é paulista dos interiores, nascida nos anos 80. É escritora, poeta e agitadora cultural. Faz parte do grupo editorial Laranja Original e escreve regularmente para o site Conti Outra. Publicou, pela editora Chiado, o romance poético Castelos Tropicais (2015) e a coletânea de poemas, pela editora Sempiterno (2016), Instruções para Lavar a Alma. Em 2017 lança, em parceria com músicos e compositores, o álbum Lavar a Alma, que reúne 13 de seus poemas musicados.

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