Quem diz que todo relacionamento é fácil está mentindo

Ninguém disse que se relacionar com alguém é fácil. Aliás, já devem até ter dito, mas ou essa pessoa estava mentindo ou ela não fazia a mínima ideia do que é um relacionamento de verdade.

É na dificuldade que casais crescem ou caem de vez.

Todo percalço numa relação é uma chance de superação, individual e também como casal. As reticências aos poucos vão se tornando vírgulas, até chegarem ao status de pontos finais que nos deixam prontos para o próximo parágrafo.

Desejar que tudo seja extremamente fácil é idealizar, projetar no outro o que você gostaria que ele fosse e não é bem assim que as coisas funcionam. O caminhar juntos, mesmo com eventuais tropeços, é o que faz um relacionamento de verdade.

Errar na quantidade de açúcar no chá, chegar atrasado ou faltar a compromissos, perder a cabeça, ter medo de baratas, não ter a mínima noção de como se troca um chuveiro, roncar, falar enquanto dorme, ter uma péssima memória para datas comemorativas, comer o último pedaço de bolo que o outro guardou religiosamente na geladeira: tudo isso está no mesmo patamar das pequenas falhas que podem se tornar degraus.

Somos humanos e nunca deixaremos de ser. Fantasiar e buscar incansavelmente a perfeição é negar a humanidade do outro. No fundo, é como estar preso em uma relação com mais ninguém além de si mesmo.

É preciso saber respeitar a individualidade e talvez essa seja a coisa mais difícil. É que há uma ideia equivocada de que cada pessoa em um relacionamento deva se tornar o complemento do outro. Algo que fica bonito nas letras de músicas e nos poemas que rimam amor com dor, mas que é um martírio na vida real.

Cada um deve ser livre para ser aquilo que quiser ser. A parceria de uma relação está nos acordos tácitos que respeitem a individualidade e não na obrigação de ser tampa de panela ou metade de laranja.

Uma relação saudável deveria ser aquela que expande, que faz com que os envolvidos se sintam à vontade para se conhecerem melhor individualmente; que apoiem um ao outro, independentemente de discordarem ou não daquilo que está sendo buscado; entender que às vezes o sonho de A não é o mesmo sonho de B e que está tudo bem ser assim.

Relacionamento é um exercício de alteridade, talvez dos maiores que existam. E não se deveria entrar em um sem estar disposto a permitir que exista outra pessoa de verdade nele.

Imagem de capa: MNStudio/shutterstock

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Jocê Rodrigues

É escritor, editor e repórter responsável pelo conteúdo jornalístico do CONTI outra.


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