Quanto mais amor a gente tem, mais medo a gente sente.

Quem tem amor tem medo. Eu tenho. Todo mundo tem. É assim mesmo, sempre foi. Uns têm mais. Outros, menos. Outros tantos, quase nada. Tem ainda os que morrem de pavor mas vivem negando. De qualquer jeito, toda criatura que sente amor, toda alma que já amou alguém na vida também já sentiu medo.

Você pode discordar. Pode ser daquela gente especial, pessoa dotada do superpoder de não ter medo de nada. Eu acredito, invejo. Adoraria ser assim, mas eu não sou, não. Eu sofro de amores e pavores.

Tenho aqui um monte de amor. Está ali, ao lado daquela montanha de medo. Viu? Tenho mesmo. Adoraria, ah, como eu queria acreditar que “quem tem amor de verdade não tem o que temer”. Eu já acho que quanto mais amor a gente tem, mais a gente teme.

Cada amor que faz de nós sua casa traz consigo um medo à espreita no porão. É preciso cuidar dele também. Mandar comida por debaixo da porta, abrir a janela e deixar entrar o sol. Vez em quando até soltá-lo à noite, deixá-lo errar por aí na solidão do escuro, enquanto as crianças dormem. Ele vai. O medo vai, mas sempre volta.

Quem tem amor, tem medo. Tal qual os pais e as mães cheios de amor e de medo das bactérias e dos canalhas, das doenças e da maldade que ameaçam suas crianças, os amantes também têm medo.

É medo de ver o amor acabar como acabam a água, o leite, a comida da despensa. Medo de não ter para onde ir buscar mais. Medo da sombra que paira no olhar da pessoa amada depois do riso, medo de não ser aceito, medo das conversas pontuadas de silêncios tensos.

Também tem o medo da insegurança que vira e mexe nos acomete e, por ironia suprema, nos afasta de quem amamos pelo simples pavor de perder.

Há quem sinta medo de deixar o medo travar-lhe as pernas e endurecer-lhe o coração. Medo de se permitir paralisar. E tem aqueles que sentem medo de não perceber o óbvio: aos que amam, o medo é um aviso sublime. É o alerta divino para cuidar do amor. É a consciência de que o ser amado pode partir, de que o amor periga fraquejar ninguém sabe quando. Então é melhor amá-lo agora e amanhã e depois e depois e depois. Só assim o medo esmorece. E se esconde no escuro solitário do porão.

Amor é sentimento irmão do medo. Quem tem um, tem o outro. Pode ser pouco, pode ser muito. Mas há sempre um medo repousando no coração dos amantes. Ou para que serviria a tal coragem de quem ama se não há medo nenhum a enfrentar?

Então, que o amor nos venha cheio de medos inevitáveis. Que venha! É melhor viver com amor e sentir medo que morrer de medo e viver sem amor.

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André J. Gomes
Jornalista de formação, publicitário de ofício, professor por desafio e escritor por amor à causa.



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