Quando o medo vira pânico

Por Maria Cristina Ramos Britto

A ansiedade é uma resposta a situações de perigo ou desconhecidas e, em pequena quantidade, é uma emoção adaptativa, que muitas vezes significa a prevenção de comportamentos que colocariam a segurança e o bem-estar do indivíduo em risco. Se na vida não se está imune a acidentes, não prestar atenção aos sinais de perigo potencializa a possibilidade de se colocar em situações de vulnerabilidade, com consequências prejudiciais. Sendo assim, emoções desagradáveis têm a função de nos fazer enfrentar questões necessárias para o aprendizado do enfrentamento de problemas e obstáculos inerentes à existência. A raiva bem dosada, por exemplo, estimula a reação à injustiça, alerta para a necessidade de se contrapor à agressão ou opressão, tirando a pessoa da passividade que paralisa e permite mais abusos.

Mas e quando a emoção negativa cresce tanto que fica insuportável? É o caso da tristeza que não passa, vai se avolumando, toma conta do corpo e da alma aos bocadinhos e vira depressão. E, nos casos dos transtornos de ansiedade, um medo tão imenso e sem evidências de que haja motivo para ele, que provoca sintomas físicos que parecem prenunciar um colapso ou dão até a sensação de morte. É o caso do transtorno de pânico, um conjunto de alterações fisiológicas, comportamentais e emocionais que se manifestam por crises caracterizadas por reações súbitas e intensas que podem durar de poucos minutos até uma hora e provocam taquicardia, dificuldade de respirar, boca seca, tremores, sudorese, tonteira, vertigens, pernas bambas, náusea, formigamento, medo de perder o controle, desmaio, terror (sensação de que algo terrível irá acontecer) e medo de perder o controle.

Vários fatores concorrem para que uma pessoa desenvolva o transtorno de pânico: ambientais, socioculturais, históricos, além de indícios (que ainda precisam ser mais pesquisados) de perfis psicológicos que seriam mais predispostos à síndrome e que apresentam características como perfeccionismo e alto grau de exigência de desempenho, necessidade de controle absoluto e autoimposição de regras inflexíveis, dificuldade de lidar com mudanças e enfrentar confrontos (baixa resiliência). Estudos indicam que indivíduos que cresceram em famílias de estrutura rígida, com pais perfeccionistas ou autoritários, ou naquelas sem estrutura ou onde as regras mudavam constantemente podem manifestar quadros de ansiedade ao longo da vida. Tanto é negativo viver num ambiente engessado e inflexível, quanto noutro permissivo e sem orientação clara de direitos e deveres, valor e competência. A história de cada um explica a forma de ver mundo e interagir com ele, mas não determina o surgimento de problemas emocionais ou psicológicos, isso vai depender de um somatório de fatores desencadeantes.

Se não tratado, o transtorno de pânico impede o sujeito de ter uma vida plena e produtiva, afastando-o dos relacionamentos pessoais e da rotina profissional, pelo medo de que as crises, com seus dolorosos sintomas, se repitam. Muitas vezes, por vergonha ou falta de apoio, a pessoa não procura tratamento especializado, esperando que o problema seja passageiro e criando mecanismos de evitação que só fazem aumentar a gravidade do quadro. A terapia cognitivo-comportamental utiliza técnicas que permitem ao indivíduo entender os eventos que desencadeiam o pânico e a lidar com eles, aprender a controlar a ansiedade, modificar suas crenças limitantes e desadaptativas, possibilitando-lhe recuperar o domínio de seus pensamentos, emoções e comportamentos.

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Maria Cristina Ramos Britto
Psicóloga com especialização em terapia cognitivo-comportamental, trabalha com obesidade, compulsão alimentar e outras compulsões, depressão, transtornos de ansiedade e tudo o mais que provoca sofrimento psíquico. Acredita que a terapia tem por objetivo possibilitar que as pessoas sejam mais conscientes de si mesmas e felizes. Atende no Rio de Janeiro. CRP 05/34753. Contatos através do blog Saúde Mente e Corpo.



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