Quando é preciso dar um gelo

Tínhamos em casa um peixinho azul,  um beta de um olho só – Pedro Caolho- que teve uma vida feliz e tediosa em seu diminuto aquário, até que ficou velhinho e já estava caminhando para as últimas nadadas. Um dia, ligamos para o veterinário com o peixinho agonizando, e ele deu as seguintes instruções: Coloquem-no em um saquinho  plástico, fechem e ponham no freezer. O frio vai anestesiá-lo e ele vai dessa para melhor sem agonia nem dor. E assim foi. O gelo trouxe a libertação do nosso peixinho.

Isso me fez lembrar a expressão: Dar um gelo em alguém, ou colocar na geladeira. Colocar na geladeira é fantástico! Você envolve a criatura que te prejudicou ou magoou, ou qualquer coisa que você não caiu bem no clima polar da indiferença. Você demonstra como um abraço caloroso poderia ser tão mais feliz de que a solidão numa caixa branca gelada, quando a luz se apaga e tudo é inércia e frio.

No caso do nosso peixe,  a geladeira foi um alívio para ele. No nosso caso, a vantagem troca de lado. Somos nós que nos aliviamos guardando a distância do que nos faz mal.

Não é bom ser vingativo, é péssimo. Mas não estamos falando de vingança, e sim de uma chance de defesa para quem não tem pronta resposta, não é bom de briga, não sabe jogar os jogos humanos com a devida frieza (opa, mais gelo). Não é cabível viver em desvantagem, há que se tirar vantagem de alguma outra estratégia.

Nesse contexto e com toda a falta de lógica que nos é particular, eu diria.:

Coloque na geladeira, para que você não estrague: Quem não se importa com você, quem suga sua boa disposição, quem não tem tempo para estar com você, quem te machuca ,  quem compete o tempo todo com você, quem não reconhece você como você…

Uma vez na geladeira, feche a porta e não ouse abrir com a desculpa de que está com fome. Fome de aquecer o que te tira o sono? Beliscar o que te esvazia a alma?  Segure as pontas e não abra essa porta. Deixe um tempo na geladeira todas as pessoas e os sentimentos que atrapalham o  seu caminho. Deixe que o frio entorpeça as mentiras, que o gelo desmaie os abusos. E, quando abrir a porta branca novamente, aqueça só o que estiver bom, saudável e nutritivo para a sua vida. Se algo estragou ou morreu, descarte dignamente,  sem apego, sem culpa. Não foi seu gelo que matou a relação , foi a falta de calor que nunca foi suficiente para mantê-la viva.

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Emilia Freire
Administradora, dona de casa e da própria vida, gateira, escreve com muito prazer e pretende somente se (des)cobrir com palavras. As ditas, as escritas, as cantadas e até as caladas.



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