Porque eu amo e já não quero interromper os ciclos

Amo e já não quero interromper os ciclos, nem os dele e nem os meus.

Amo, mas já não quero interferir na vontade do meu olhar que encontrou horizontes e novas primaveras pela janela e aqui dentro a gente já não floresce mais juntos.

Amo, mas os meus galhos secaram e não é porque o seu amor é erva daninha, é apenas que somos plantas de diferentes espécies e minhas raízes já consumiram tudo o que guardavam em si mesmas e andam sedentas de renascimento.

Amo mais ainda por ver que seus galhos poderão se esparramar, crescer, frutificar depois que aprenderem a olhar para a solidão sem medo e com grandeza, depois que aprenderem a trilhar suas próprias verdades.

Por te amar, por amar a mim mesma, eu escolho vida pra gente e a gente já viu que a vida se abre inteira para os corajosos.

Por não saber mais como cultivar minhas flores sozinha e esparrama-las no seu peito, por não querer tirar de mim e doar em vão as minhas belezas, o que eu pensava que de mim era adubo, por sua terra já estar empapuçada de minhas águas e eu ter secado, por eu ter incisivamente tentado evitar as suas estiagens, e assim te preservado menor do que poderia, mais frágil, evitado que você atingisse todo o seu potencial.

Por eu saber que até Deus é cíclico e no caminho natural da vida não existem existências feitas apenas de verões e primaveras, por eu saber que o mundo não é uma incubadora e os tropeços desenvolvem asas e almas mais amplas.

Por saber de tudo isso eu vou e eu te deixo.

Porque eu amo e já não quero interromper os ciclos.

Porque amar é deixar fluir. E porque eu acredito que é isso que a vida nos pede e oferece. E eu sei que quando viermos a florescer novamente, em nossos bosques estrangeiros, poderemos oferecer ao mundo muito mais do que agora, porque a gente não vai mais dar partes da gente até encontrar o esgotamento de novo. A gente vai ceder a luz que nos sobra e o ensinamento de nossas flores, a gente vai servir de amor e espelho para que outras almas tenham também a coragem de aprender a voar na hora que a vida pede que saiam do ninho.

Porque a gente vai se reconectar com a natureza do amor e não com o medo da perda.

Amar é saber que a gente floresce espontaneamente e não por que encontramos um ao outro.

Florescemos e ponto.

Amar é dar espaço para que o outro encontre a plenitude de suas primaveras.

Amar é não interferir nos processos.

E quando eu te ver voando, robusto e lindo, nada mais precisará fazer sentido.

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Clara Baccarin
Clara Baccarin é poeta, escritora e tradutora. Autora do romance Castelos Tropicais (Ed. Chiado, 2015), e do livro de poemas Instruções para Lavar a Alma (Ed. Sempiterno, 2016). É uma contadora de histórias que adora poetizar o mundo. Escreve por amor e rebeldia: desconstruindo verdades, brincando com as palavras e ressignificando a vida.



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