Por favor, não confunda “direito a se indignar” com “licença para ser indigno”.

Todos estamos indignados. Todos. Quem vai às ruas contra a corrupção e a favor do impeachment da presidenta, quem se manifesta em defesa da democracia e contra o golpe, quem discute política em casa, na escola, no trabalho, no bar. Até quem fica em casa reclamando transpira indignação. De uma vez por todas, ninguém é a favor da corrupção, da roubalheira ou de qualquer bandidagem do gênero. Logo, todos estamos indignados.

Você e eu e todo mundo temos não só o direito mas o dever de sentir indignação quando tomamos conhecimento de algo que nos revolta. Quando os nossos valores culturais ou os nossos conceitos morais são atacados, sentimos indignação. É assim com toda gente. E não faltam motivos para nos sentirmos, todos, indignados.

Agora, a nossa indignação não nos dá o direito de cometer indignidades aqui e ali. Sim, porque tem gente por aí aplaudindo o quebra-quebra nas ruas, cruzando os braços e decretando: “quem causou essa violência toda foi o governo que nos violentou primeiro”. E deixemos o pau quebrar! Aqui entre nós, deixar o pau quebrar, quebrar o pau na prática ou incentivar de alguma forma a violência, inclusive fingindo que ela não existe, é uma tremenda e descarada indigência. Não pode. Não pode porque aí nos tornamos indignos. Indignos até do próprio direito à indignação.

Quem se diz revoltado com o governo que aí está e aprova que “os de lá” e “os de cá” se ataquem, aplaudindo o equivocadíssimo raciocínio do “nós contra eles”, arrebenta a linha clara que separa “indignação” e “indignidade”.

Indignidade é ausência de decência. É o nome que o mundo civilizado deu a qualquer ação ou conduta cruel, desonrosa, desumana. Seja roubar dinheiro público ou investir contra quem pensa diferente de você para insultar-lhe, enfiar-lhe a porrada ou coisa pior.

Indignação é sentir repulsa por um abuso. Indignidade é cometer o abuso.

Quando sentimos lá dentro que algo vai muito errado e fazemos qualquer coisa para mudar o que não achamos certo, estamos indignados. Mas quando o que fazemos para mudar o que não achamos certo é justamente o algo “errado”, nos tornamos indignos. Impróprios, indevidos. A briga agora devia acontecer é dentro de cada um de nós. Todo cidadão decente tem a obrigação de cuidar para não fazer exatamente o que critica nos outros. Porque por aí já tem muita gente “indignada” descambando na indignidade.

Sim, é impróprio nos atacarmos uns aos outros. É indevido julgarmos “o outro lado” pura e simplesmente, reproduzindo sem qualquer exame crítico posições raivosas como surrupiar uma lista de artistas, escritores, intelectuais que assinaram um manifesto a favor da democracia e gritar aos quatro cantos que “estes são os inimigos do povo” ou coisa parecida, incitando as pessoas a não comprarem seus livros, não assistirem às suas peças e outros absurdos. No pior estilo macartista, voltamos quase um século no quesito intolerância política. Real e descarada indignidade.

É isso mesmo, minha gente? Será que é isso mesmo o que nos tornamos? É isso mesmo o que queremos para nós? Alguém já se perguntou o que há de vir depois dessa fase? Ou para onde é que essa ilusão de bem contra o mal vai nos levar?

Deixemos de coisa. Indignação sem valores, sem inteligência, tolerância, respeito, cidadania, união, vergonha na cara e, sobretudo, sem amor ao próximo nos impede de pensar. Arranca de nós a capacidade de compreender o outro. E vira indignidade. Pura e simples indecência. Sejamos atentos, fortes e dignos, pois. É o mínimo.

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André J. Gomes
Jornalista de formação, publicitário de ofício, professor por desafio e escritor por amor à causa.



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