Perguntam se a gente tem emprego, se a gente se casou, mas raramente querem saber se a gente é feliz

A maioria das pessoas está preocupada com os próprios problemas, com o quanto poderão consumir naquele mês, ou se o peso do corpo continua o mesmo. Quando conversam umas com as outras, mal estão prestando atenção nas respostas às perguntas superficiais que fazem, porque não se interessam, pouco se importam – trata-se apenas de curiosidade mesmo.

Quanto mais a gente vive, mais percebe que a grande maioria das pessoas não está nem aí, não se importa, não quer saber, tampouco se interessa pela vida do outro. As pessoas correm demais, trabalham demais e se preocupam excessivamente consigo mesmas, a fim de que lhes sobre tempo para sair de sua confortável redoma, onde o eu – e só ele – existe.

E, assim, atravessamos bons dias apressados, boas tardes frios e boas noites desinteressados. Discursa-se sobre a necessidade de haver mais sentimento entre as pessoas; postam-se mensagens e textos virtuais que transmitem amor e solidariedade; leem-se livros de autoajuda, veem-se filmes motivadores. No entanto, na prática, no dia-a-dia, os eus continuam olhando para si mesmos, tão somente para si mesmos, atropelando quem ousar pensar diferente.

O pouco tempo disponível que sobra é lotado de compromissos egoístas, como exames de rotina, malhação na academia ou nos parques arborizados, encontro com colegas de quem pouco se sabe, para embriagar-se e assim tentar se esquecer do que se deixa para trás. Não queremos sofrer, temos horror ao sofrimento, por isso nos afundamos em dívidas, em pílulas da felicidade, em sessões de terapia.

A maioria das pessoas está preocupada com os próprios problemas, com o quanto poderão consumir naquele mês, ou se o peso do corpo continua o mesmo. Quando conversam umas com as outras, mal estão prestando atenção nas respostas às perguntas superficiais que fazem, porque não se interessam, pouco se importam – trata-se apenas de curiosidade mesmo. No máximo, repassarão algo que ouviram, através do “diz que diz”, muitas vezes de maneira puramente maldosa.

Isso, no entanto, não significa que não existe quem seja verdadeiro e confiável, mas serve para que possamos nos abrir a quem de fato se interessa pelo que sentimos. Sempre haverá alguém que torce por nós verdadeiramente, com afetividade sincera. Saber quem são essas poucas pessoas nos dará a certeza de que temos com quem contar, se precisarmos. Nós, obviamente, teremos também que nos abrir, saindo de nosso mundinho, para que partilhemos verdades com quem chega de coração aberto. Somente assim a gente vive sem pesos demais atravancando nossa busca pela felicidade.

Imagem de capa: Billion Photos/shutterstock

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Marcel Camargo

“Escrever é como compartilhar olhares, tão vital quanto respirar”.

É colunista da CONTI outra desde outubro de 2015.


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