Penso, logo não odeio quem pensa diferente de mim.

Não, eu não vou odiar você porque as nossas opiniões divergem. Não vou enfiar o seu nome na boca do sapo porque, primeiro, eu nada tenho a ver com a sua vida e, depois, o coitado do sapo nada tem a ver com isso.

É claro que eu não vou odiar você por defender e incentivar essa onda de violência dos que se entrincheiram à esquerda ou à direita, atacando uns aos outros nas ruas como inimigos de morte. E como se hoje fizesse alguma diferença ser “de esquerda” ou “de direita”.

Não vou riscar o seu nome do meu caderno por você não perceber que nós estamos todos no meio da confusão, no alvo, na linha de tiro. E que o nosso bizarro, tacanho e antiquado sistema político-partidário foi criado mesmo para favorecer a corrupção e o enriquecimento de meia dúzia de “escolhidos”. Enquanto nos engalfinhamos, os políticos de TODOS os partidos, únicos beneficiados por essa máquina medonha, estão achando ótima a nossa desunião. Mas eu não vou repelir você por não ter se dado conta disso.

Você vai me desculpar, mas se enganou feito uma besta ao imaginar que eu ia perder um só segundo maldizendo a pobre da sua mãe em resposta à sua mensagem covarde, escondida sob um nome falso, ofendendo a minha.

Olha, eu não vou pedir a Deus que fulmine a sua cabeça com um raio daqueles só porque você se acha a única alma prejudicada pela crise, a corrupção, a roubalheira na política e essas coisas.

Não vou abominar a sua figura, nem quando apela para abobrinhas do gênero “a culpa da violência do povo é do governo”, “fulano que defende sicrano tem mais é que apanhar” ou “só quem sente na pele os efeitos da crise sabe que é preciso lutar por um país mais justo e blá blá blá”, como se “lutar” fosse igual a enfiar a porrada em quem pensa diferente de você. Não vou fazer campanha contra a sua pessoa por isso, não. No máximo, confesso, vou rir um pouquinho aqui comigo da sua ingenuidade, da sua ignorância e da sua burrice. Mas odiar, não. Ninguém precisa odiar quem tem opiniões diferentes das suas.

Acredite. Eu não vou arder de raiva de você por compartilhar uma certa lista com nomes de artistas, músicos, jornalistas e outros cidadãos que “apoiam” um partido ou outro, numa execrável e patética caça às bruxas, uma típica manifestação de fascismo macartista. Eu, não. Ahh… também não vou desejar a sua morte se você se orgulhar de não saber o que foi o macarthismo ou achar que isso não lhe interessa.

Não vou mandar você àquele local por me acusar de estar em cima do muro porque eu não me posiciono a favor de qualquer partido, mas me ponho contra qualquer tipo de investida violenta, inclusive aos direitos individuais de cada um de nós.

Eu não vou odiar você por pensar diferente de mim, não. Eu só vou discordar de você. Discordo o quanto eu quiser. Discordo e vou defender o meu direito de apoiar as ideias que achar que devo e divergir de quem eu bem entender. Defendo o meu e o seu direito de discordar. E discordar não quer dizer “bater de frente” ou, simplesmente, odiar.

É que eu não odeio quem pensa diferente de mim. Não preciso. Não perco meu tempo com isso, não. Eu tenho mais o que amar por aí.

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André J. Gomes
Jornalista de formação, publicitário de ofício, professor por desafio e escritor por amor à causa.



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