O tabu da monogamia

O medo de ser trocado, abandonado, o medo de a cara-metade encontrar alguém mais interessante e saltar de banda ainda parece ser o motor da monogamia nos dias de hoje.

Em uma entrevista para o portal Uol, a psicanalista Regina Navarro  propõe a seguinte reflexão acerca da monogamia ao falar sobre seu “O livro do amor” (Editora Best Seller):

“A exclusividade sexual é a grande preocupação de homens e mulheres. Mas ninguém deveria se preocupar se o parceiro transa com outra pessoa. Homens e mulheres só deveriam se preocupar em responder a duas perguntas: Sinto-me amado(a)? Sinto-me desejado(a)? Se a resposta for ‘sim’ para as duas, o que o outro faz quando não está comigo não me diz respeito. Sem dúvida as pessoas viveriam bem mais satisfeitas”.

Trata-se de um pensamento bastante lúcido. Uma pena não termos, ainda, aparato emocional para vivenciarmos o amor de maneira livre, natural e espontânea como ela sugere.

Fato: não temos como controlar o desejo do outro! E caso nosso parceiro sinta desejo por outra pessoa isso não quer dizer necessariamente que ele não nos ame.

Quem foi que associou o amor à exclusividade?

A História dá conta de que a monogamia foi inventada por questões patrimoniais: os homens precisavam ter a certeza de que seus filhos eram herdeiros legítimos. A Igreja Católica apenas consolidou, tempos depois, essa necessidade social, associando a não exclusividade matrimonial ao pecado.

Na teoria é fácil, né? Porém, na prática, não resolve muita coisa ter esse tipo de informação.

Na realidade não suportamos nem mesmo a ideia de que o nosso par possa olhar para o lado quando estamos num restaurante, que dirá que tenha outro parceiro.

Mas de onde vem isso?

Imagino que seja do medo do abandono! O amor nada tem a ver com isso.

Nem mesmo Jean Paul Sartre e Simone de Beauvoir, casal mais conhecido por manter  “um relacionamento aberto” numa época extremamente conservadora, conseguiram viver essa experiência sem sofrimento. Beauvoir era uma escritora autobiográfica e em seu livro “A mulher desiludida”, por exemplo, fica exposta toda a angústia que ela sentia quando Sartre (no livro, André) se enroscava com outra pessoa.

Pesquisas apontam que nunca se traiu tanto. Homens e mulheres. Isso não quer dizer que não traíssem antes, quer dizer apenas que antes não confessavam.  No entanto, a culpa é quase sempre um elemento presente, são raras as pessoas que traem sem sentir que estão cometendo algum delito.

Às vezes uma relação leal é muito mais satisfatória que uma relação fiel. Muitos casais fiéis são desleais: agridem uns aos outros, não se ajudam mutuamente, só pensam nas próprias necessidades, ridicularizam-se em público. Ao passo que alguns casais infiéis (como Sartre e a Simone) são extremamente leais e companheiros até o fim.

Segundo Regina Navarro “na segunda metade do século 21, provavelmente, as pessoas viverão o amor e o sexo bem melhor do que vivem hoje”.

O medo de ser trocado, abandonado, o medo de a cara-metade encontrar alguém mais interessante e saltar de banda ainda parece ser o motor da monogamia nos dias de hoje, pois a monogamia nos oferece a falsa ilusão de que estamos protegidos, seguros e que não seremos abandonados. Ela não está relacionada ao amor. Até porque o amor pode acabar e se acabar seremos abandonados da mesma forma.

A gasolina desse motor? Ao que tudo indica, é o desejo de ser único e absoluto.

Ora, se a vida às vezes não colabora; se não conseguimos a posição que desejamos no mercado de trabalho, se não conseguimos ser os queridinhos da família, se nos deparamos com nossas falhas o tempo todo, o amor do outro surge para nos redimir, nos tornar únicos, especiais, essenciais. O amor do outro acaba se transformando numa ilha onde aportamos os pés cansados de caminhar na dura realidade.

Mas quem é que pode assegurar, com a régua da certeza em punho, que não é possível amar mais de uma pessoa ao mesmo tempo?

Há alguns anos, o cineasta João Jardim apresentou uma série interessantíssima no canal GNT (disponível no NET NOW), chamada “Amores Livres”, onde discute o tema. Trata-se do registro (e de depoimentos) de pessoas que vivem o amor de maneira espontânea, libertária, pessoas que experimentam o Poliamor. Quem poderá assegurar que não se trata de amor verdadeiro o que eles experimentam? Eu, particularmente, ao assistir a série, pensei: “Que galera mais evoluída”!

Ocorre que, quando a farinha é pouca o nosso pirão vem primeiro. Padecemos de uma carência de afeto e de uma necessidade de amor primordial que não nos permite sequer sonhar com a possibilidade de dividir nossa farinha, digo, parceiro-que-nos-ama com outra pessoa.

Já vi inúmeros casais que se amavam profundamente destruídos porque uma das partes descobriu “a traição” do outro. Pessoas que se davam bem, divertiam-se juntas, eram companheiras. Pessoas que deram cartão vermelho para seus pares e depois passaram praticamente uma vida inteira chorando e lamentando a perda.

Se ambos queriam continuar juntos, se ambos se amavam, por que não?

Claro que não estou me referindo aos safados e safadas de plantão – que são comprometidos (as), porém agem como se não fossem; que espalham sorrisos e cantadas para qualquer maldito (a) e se deitam com o primeiro peixe que cai na rede. Estes (as), talvez, não amem nem eles (as) mesmos (as), quanto mais uma ou duas pessoas ao mesmo tempo.

Em sua entrevista, Navarro também propõe outra reflexão interessante:

 “A busca da individualidade caracteriza a época em que vivemos; nunca homens e mulheres se aventuraram com tanta coragem em busca de novas descobertas, só que, desta vez, para dentro de si mesmos. Cada um quer saber quais são suas possibilidades, desenvolver seu potencial. O amor romântico propõe o oposto disso, pois prega a fusão de duas pessoas. Ele então começa a deixar de ser atraente. Ao sair de cena está levando sua principal característica: a exigência de exclusividade. Sem a ideia de encontrar alguém que te complete, abre-se um espaço para outros tipos de relacionamento, com a possibilidade de amar mais de uma pessoa de cada vez”.

Talvez os nossos netos e bisnetos consigam vivenciar o amor de maneira mais natural e com menos sofrimento. Nós (ou será que estou falando de mim?) infelizmente ainda estamos encharcados dos códigos sociais que nos foram impostos e dificilmente quebraremos esse paradigma; não sem sofrimento. Mas isso, claro, não nos impede de refletir sobre o assunto sem temê-lo.

Torço para que um dia consigamos, finalmente, morder a maçã de Raul Seixas; para que entendamos de uma vez por todas que “o amor só dura em liberdade, o ciúme é só vaidade”…

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Mônica Montone
Mônica Montone é formada em Psicologia pela PUC-RJ e escritora. Autora dos livros Mulher de minutos, Sexo, champanhe e tchau e A louca do castelo.



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