O significado dos nossos chapéus

No livro “A insustentável leveza do ser” há uma passagem em que o narrador nos presenteia com uma reflexão sobre um fragmento da vida de Sabina, uma das personagens do romance, que, devido à ausência de significado do chapéu de coco que vestia sua cabeça para o amante com quem ela se encontrara – chapéu que havia sido objeto erótico e sentimental de um relacionamento anterior -, identifica um abismo gigante entre eles.

O mesmo chapéu que, dentro de uma determinada história, fora motivo de excitação e, posteriormente, um gatilho de comoção, um hino à memória compartilhada, agora, ao ser vestido, nada significava para o presente telespectador, tratava-se de uma língua desconhecida que os distanciava.

É claro que, conforme o narrador ainda nos aponta através de uma bonita metáfora, as pessoas sempre podem compor em conjunto as partituras musicais de suas vidas, porém, na medida em que ficamos mais maduros, elas tendem a ficar mais acabadas e os objetos e palavras passam a ter um significado diferente na vida de cada um.

E eu penso que é justamente na existência de significações compartilhadas que reside a beleza de nossos relacionamentos. Muitos acabam, por diferentes motivos – e, dentre eles, o medo -, vestidos de uma superficialidade que sufoca a espontaneidade necessária à construção de um sentimento comum que ficará atrelado, sob a testemunha única de seus criadores, às palavras e objetos.

As pessoas especiais não são, necessariamente, aquelas com as quais compartilhamos uma quantia significativa de momentos; mas aquelas cuja verdade e intensidade transbordam e passam a morar, em forma de sentimento que um dia evocará saudade, em fonemas e contextos.

A graça gigantesca que eu e meu pai encontrávamos na careta que criamos e cultivamos por toda a minha infância não ficará estampada nos lábios de mais ninguém, ainda que eu venha a reproduzi-la fielmente. Não ríamos porque a careta era engraçada (ainda que fosse); ríamos pelo prazer do hábito compartilhado, ríamos pelo pacto silencioso que o trejeito inventado selava.

E, muitas vezes, o que chamamos de saudade se manifesta quando os representantes das significações compartilhadas surgem e o outro não está mais lá para dividi-las, para nos presentear com o afago da compreensão silenciosa e simultânea.

Ainda bem que, por mais rara que possa se tornar, jamais estaremos livres da sinfonia de novos motivos a serem compartilhados que surge quando conhecemos o outro e nos deixamos conhecer, afinal, poucas coisas nos fazem sentir tão vivos quanto caminhar ao lado de alguém que conhece o significado dos nossos chapéus.

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Patrícia Pinheiro
Gaúcha e estudante de Psicologia. É escritora e revisora de textos na Sociedade Racionalista, colunista do CONTI outra, artes e afins, Fãs da Psicanálise, Inspiring Life e escreve, ainda, para o Blogueiras Feministas; Brasil Post; Benfazeja; Psiconline Brasil e Puta Letra. É feminista, apaixonada por moda e assumidamente viciada em filmes e séries. Ainda irá viver da escrita.



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