O selfie como tentativa de permanência

Recentemente em evento familiar ficou intensificada a ideia de como parte de nossa sociedade está obcecada em registrar os momentos a partir de suas máquinas fotográficas ou celulares multimodais. Não há anormalidade nesta prática, apenas desperta a atenção quando os seres não conseguem descartar seus aparelhos e tentam registrar o tempo de forma incessante. A necessidade em retratar faz com que muitos descartem a sensorialidade do presente. De alguma forma o usuário da máquina esteve presente, mas também não esteve devido a preocupação em se colocar no futuro.

Surgem os “paparazzi” domésticos, sempre a espera de um gesto que possa nos definir; sua gratificação é a falsa sensação de registro e cristalização de um momento. Nos eventos, estas novas formas autônomas de “retratistas” evidenciam uma ansiedade intensa, principalmente em festas de crianças, em acumular ou coletar imagens, apontando para a posteridade. Nesta prática pode-se afirmar que há um ambiente que abriga uma angústia sutil.

O desconforto inconsciente poderia identificar a insatisfação em aceitar que o momento escorre pelas mãos. O avançar do tempo nos fragiliza e nos coloca mais próximos do conceito de finitude. Chagdud Tulku Rinpoche dizia que os ponteiros dos relógios apontam apenas para uma única direção: a morte. Cronos, o deus do tempo, com sua foice, aguardando a colheita e devorando seus filhos, não diferente é impiedoso. Claro que esta discussão está em um âmbito sutil, inconsciente e revela apenas seus sintomas. Um deles: fazer o momento algo materializado, passo a passo, sorriso a sorriso, como se as lágrimas estivessem descartadas. As redes sociais intensificam o momento registrado, não obstante, há a necessidade de ser curtido e compartilhado; assim me eternizo, não morro, o momento não será esquecido. Revela-se o desejo de paralisar os ponteiros e a prorrogação da colheita de Cronos.

Quanto mais a sociedade se levanta em registrar freneticamente, além da discussão narcísica, nota-se a rejeição a transitoriedade e seus efeitos impermanentes.  Em viagens é comum a obsessão em registrar tudo, afinal não saberemos quando retornaremos, isso nos angustia. Tiramos fotos de todos os acontecimentos e no final da viagem não conseguimos lembrar o cheiro da terra visitada. A sensorialidade foi abolida devido a preocupação com o futuro, esquecemos do presente. Lembro que o cheiro da noite no Pantanal é muito diferente das manhãs gélidas de Gramado, as máquinas não podem captar esta sensação.

Em breve nos sentaremos com nossos aparelhos, riremos e choraremos com um passado que não conseguimos cristalizar ao rever nossas fotografias e iremos concluir que poderíamos ter vivido mais intensamente aquele momento. A angústia permanecerá, agora no sentido inverso; no tempo que se foi.

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Rafael Souza Carvalho
Jornalista, apresentador do Sentinelas da Tupi (Rádio Tupi -RJ), Licenciado em História e Psicanalista em formação pala Sociedade Brasileira de Psicanálise Integrativa.



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