O olhar poético nos filmes de 2016

Este ano, ao acompanhar os filmes em cartaz nos cinemas, venho notando certos temas em alta nos roteiros. Num primeiro momento notei em comum temas como: discussão de gênero, abordagens sobre o posicionamento da mulher na família, sociedade, sobre a coragem feminina em romper culpas e deveres impostos por uma sociedade atrasada e masculina, e a força da mesma ao desconstruir valores (às vezes até dentro de si mesma) e procurar novas formas de expressão e atuação social. São filmes como ‘Carol’, ‘Joy’, ‘As Sulfragistas’, ‘Freeheld’

Mas, além do tema feminino/feminista, uma coisa que me chamou a atenção em muitos desses filmes que assisti foi a questão do olhar narrativo. E com isso quero dizer, a escolha dos diretores em abordarem as histórias por focos nada óbvios e convencionais e um tanto poéticos. Não quero generalizar, mas dois filmes que me emocionaram e que eu notei bem isso foram: ‘Carol’ e ‘O Quarto de Jack’.

Em ‘Carol’, o filme muito mais do que contar a história da mulher madura, rica, sofisticada, mãe de família que se apaixona por uma simples e jovem vendedora de uma loja de brinquedos e mostrar os acontecimentos e percalços de uma viagem que as duas empreendem juntas, talvez não como tentativa de fuga, mas de descoberta (cada uma de si mesma), e muito mais do que focar na questão da homossexualidade, e do feminismo; o filme, no meu entender, consegue fazer uma coisa muito mais humana, ele não explica, não politiza, ele nos faz experimentar, nos coloca na pele dessas mulheres, nos faz perceber os dramas e as dores e também o amor (que aliás surge de forma tão bonita e natural no filme) ao nos possibilitar cenas de silêncio, ao mostrar os olhares, ao escolher um ritmo narrativo e uma delicadeza de câmera, de foco, de toques e falas, ao deixar duas grandes atrizes expressarem esses sentimentos nas cenas.

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Cena do filme “Carol”.

Eu senti que o filme não quer colocar um tema importante e se fazer entender pela razão, ele quer nos fazer sentir. Me tirou lágrimas ao fazer o meu lado humano empatizar com o humano daquelas personagens.
E que riqueza é o cinema conseguir fazer isso!

O outro filme que mencionei, ‘O Quarto de Jack’, fui assistir com um pé atrás, pensando que seria um daqueles dramas policiais e familiares, já que a história em si me pareceu bem forte: uma mulher que foi sequestrada e viveu trancada em cativeiro por 7 anos com um filho de 5 anos que teve com o sequestrador.

A surpresa veio quando eu vi que a intenção do filme não era nada disso, e justamente era a questão do olhar. Desta vez o olhar de uma criança de 5 anos, um menino que nasceu num quartinho sem nunca sair dele (até os 5 anos), que apenas interagiu com sua mãe, com os objetos desse quarto sem janelas, com os programas de TV e com seus medos (principalmente de seu pai) e com sua imaginação.

O filme não se propõe a contar apenas os dramas da mãe e do filho tentando escapara do cativeiro, nem da felicidade ao conseguirem e terem uma nova chance de viver em sociedade. Pelo contrário, o filme mostra as dores e descobertas desse garoto, o seu processo de adaptação em uma realidade muito mais ampla, rápida, cheia de estímulos sensitivos, histórias e acontecimentos.

O filme mostra o apego deste menino ao quarto, pois lá era o seu mundo, lá ele se reconhecia, lá ele tinha uma rotina e construiu sua realidade. Foi tão interessante ver o que se passa no psicológico e nas sensações desse menino, que não se sente super feliz por estar livre, mas se sente estranho, estrangeiro, deslocado, diferente, sente falta de viver em seu universo palpável.

E também foi lindo acompanhar as falas de Jack, as percepções desse mundo novo, que parece tão grande, tão rico, tão cheio de espaços e liberdades, mas que na verdade também nos aprisiona de tantas maneiras: nas relações pessoais, nos deveres sociais (como por exemplo de dar entrevista – no caso deles), nas obrigações a serem cumpridas num curto intervalo de tempo, que fazem a vida, que poderia ser realmente tão ampla, se tornar restrita.

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Foi surpreendente viajar na poesia do olhar de Jack, aliás, o ator dá um show de interpretação e faz tudo ficar mais genuíno. E o filme me fez pensar filosoficamente sobre como vivemos: será que nós também não estamos, muitas vezes, vivendo num quarto de Jack?

Não vou entrar nessa interpretação agora, mas termino dizendo que andei me encantando bastante nas visitas ao cinema este ano, ao descobrir que a sétima arte anda vasculhando almas e olhares e desenhando o modo de narrar de forma a nos extrair a nossa sensibilidades.

Felicidade é ver o cinema sendo arte.

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Clara Baccarin
Clara Baccarin é poeta, escritora e tradutora. Autora do romance Castelos Tropicais (Ed. Chiado, 2015), e do livro de poemas Instruções para Lavar a Alma (Ed. Sempiterno, 2016). É uma contadora de histórias que adora poetizar o mundo. Escreve por amor e rebeldia: desconstruindo verdades, brincando com as palavras e ressignificando a vida.



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