O coração é um velho colecionador

Ela reconhecia quando era hora de fazer a tão adiada faxina no coração.
Era quando a necessidade de fluir se tornava mais forte do que os apegos.
Era quando um cheiro estranho começava a ser notado.
E aquele som que antes era melodia, agora já não soava bem.
Ou quando o conforto dos entulhos causava uma falta de ar.
E quando vinha aquela sensação de aperto – tudo tão cheio e inútil.
Tudo tão presente e distante.
‘Às vezes a gente está tão cheio que está vazio.’
Ela sabia
‘Às vezes a gente está tão vazio que está cheio.’
Ela queria

As faxinas no coração eram sempre tão adiadas, porque o coração é um velho colecionador.
Cheio de compaixão, tem dó de jogar fora uma moeda antiga – quem sabe volte a ter valor! Sofre ao se desfazer daquele pássaro empalhado, mesmo sabendo que hoje em dia ele só voa na imaginação.
O coração empoeirado e entulhado antes de ser faxinado sofre por dois lados- 1. por saber que ficará novo e limpo, ele tem medo do vazio. 2. por saber que vai perder o que um dia o encheu de vida.

Quem faz a faxina no coração é a cabeça. Organizada, trabalhadeira, caprichosa. Sem dó passa o pente fino em todas as artérias. Ela quer deixar no coração o que ainda faz sentido, e só. Prática essa cabeça. Ela sabe que em duas semanas o coração estará novinho em folha, pronto pra outra.

O coração aceita a situação, afinal precisa respirar de novo. Ele quer, agora, ficar mais amigo da cabeça, quer fazer faxinas em curtos prazos.

Mas será que vai ser sempre a mesma sina? Assim que ele ver a vastidão de seus átrios e ventrículos – espaçosos, frescos – voltará ao velho vício de colecionar belezas?

‘Sim’, responde a cabeça, ‘assim como qualquer coração funcionando em seu perfeito estado’.

O coração não quer funcionar em perfeito estado de coração, ele quer ser cérebro. Se ele for cérebro, ele não precisa se encantar, sentir, sofrer, viver e morrer.

Diz a sensata cabeça ‘todo coração que se quer cérebro é covarde e tolo. Como seres que têm asas e ficam rastejando. Por medo, não alcançam as mais altas expressões da vida.’

‘Você, meu caro amigo, é um coração em bom estado de coração, só precisa aprender a aceitar as mortes.’

O coração sabe aceitar, ele só está cansado de acompanhar os ciclos da vida.

Mas o coração velhinho agora decidiu que vai ter um design moderno, tudo clean – agora aqui só entra quem tomar cuidado.

‘Você me avisa cabeça, me abre os olhos?’

E a cabeça respira e diz
‘Se eu tivesse o poder de conhecer os intransponíveis universos dos outros corações, meu amigo, eu te diria.’

‘Mas não sou eu que te protejo ou desprotejo, é a vida.’

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Clara Baccarin
Clara Baccarin é poeta, escritora e tradutora. Autora do romance Castelos Tropicais (Ed. Chiado, 2015), e do livro de poemas Instruções para Lavar a Alma (Ed. Sempiterno, 2016). É uma contadora de histórias que adora poetizar o mundo. Escreve por amor e rebeldia: desconstruindo verdades, brincando com as palavras e ressignificando a vida.



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