O amor que mata: Madame Bovary e a incompletude histérica

As grandes obras da literatura universal permitem ao leitor um mergulho nos esconderijos mais secretos da alma humana. Nada mais atrativo para quem gosta de escavações arqueológicas. Além de ser confrontado com conflitos da existência, o leitor experimenta, a cada parágrafo, novas emoções que podem torná-lo mais humano. Ou seja, através do ato contínuo e prazeroso da leitura, – colocar-se no lugar do outro, vivenciando seus medos, amores, conflitos e paixões, – torna-se tarefa sem a qual não há transformação subjetiva possível.

Sendo assim, resolvi pensar sintética e psicanaliticamente sobre um dos romances mais lidos do mundo: Madame Bovary, de Gustav Flaubert, publicado na França em 1857. Tal feito resultou num escândalo para a época, – levando Flaubert aos tribunais – em consequência das acusações feitas pelos puritanos em relação à violação dos preceitos morais e religiosos. Para fins de defesa, numa frase que se tornou célebre, Flaubert atalhou: “Emma Bovary sou eu”. Flaubert critica no romance os desejos da burguesia ascendente, – a classe média, – que após a Revolução Francesa de 1789, passou a redefinir os valores e os costumes da vida social, econômica e política.

O livro desnuda aos poucos uma crescente decadência da vida interna e externa de Madame Bovary, ao retratar a desilusão e o desespero que a levaram a um fim trágico, – fato que provocou um marco na história do realismo literário.

Leitora contumaz de romances, Bovary se encantava com as narrativas romanescas que a conduziam a idealizar para si uma vida equivalente. Mulher bonita e provinciana, no entanto inexperiente na vida afetiva, porém não menos decidida em reinventar sua própria realidade, levou às últimas consequências seu desejo; já que não encontrou na relação matrimonial com Charles Bovary, o protótipo da felicidade ou algo análogo aos amores principescos relatados nos livros. Charles Bovary era um médico simples e estava a léguas de corresponder à imagem que ela forjava dos homens. Sem grandes pretensões pessoais e profissionais, não tinha muito a oferecê-la em termos de aventuras amorosas, a não ser uma vida entediante traçada pela invariabilidade.

O adultério tornou-se um destino para Bovary em razão do desejo implacável de querer vivenciar novas experiências e emoções que pudessem desafogá-la do marasmo e da solidão crescentes. Não se importava com a possibilidade de ser rigidamente castigada pelo fato de transgredir os valores e a estrutura burguesa da época, cujo papel da mulher reduzia-se aos afazeres domésticos.

O predomínio do discurso ideológico propagado pela ciência defendia a tese segundo a qual a mulher nasce para ser mãe e para cuidar do lar e dos filhos, transformando seu corpo em propriedade do desejo masculino. Nada mais avesso à personalidade subversiva de Bovary. Ela foi considerada uma personagem que reinventou o papel da mulher ao não se curvar aos padrões predefinidos pela lógica burguesa, não titubeando em buscar caminhos que a retirasse do aprisionamento da esfera privada.

Quanto ao discurso do apaixonado, traço do desejo de Bovary, sabe-se que nele reside a característica fundamental de crer na esperança de reencontrar no ser amado aquela parte que lhe falta, visando não outra coisa se não ser elevado à condição de um ser completo. O início das relações amorosas é muitas vezes definido pelo não reconhecimento da existência concreta do outro, exigindo dele a missão de resgate da condição de falta própria da existência humana.

Segundo Maria Rita Kehl (1987), a frustração, em toda e qualquer paixão, é inevitável, pois em algum momento o apaixonado reviverá a decepção infantil da criança que perde a condição de exclusividade do desejo da mãe. Com isso, a existência do outro ganha corpo ao se libertar dos grilhões da fantasia do apaixonado que o constrói à sua “imagem e perfeição”. O deslumbramento do discurso apaixonado não resiste ao teste de realidade na medida em que o outro torna-se mais conhecido, além de ser humanamente impossível sustentar por longos períodos a alegoria narcísica forjada pela fantasia. Querer fundir-se com o outro evidencia o que está sendo negado na sua raiz: a falta.

O vazio que havia dentro de Bovary refletia-se no seu profundo e perene estado de insatisfação. Nenhum amante conseguiu aproximá-la da realidade livresca, pois nada, nem ninguém, poderia preencher o que é da ordem do impreenchível e operar na contramão da manutenção de seu desejo; ou seja, – o desejo de manter o desejo sempre insatisfeito.

Bovary representa o protótipo literário da histeria, cuja organização subjetiva é marcada pelo laço que tece com os outros a partir de suas fantasias; além de apresentar, a cada desilusão, uma doença nervosa.

A histérica, em termos psicanalíticos, é aquela (ou aquele) que sempre considera o outro decepcionante. Não há nada nem ninguém que possa agradá-la. Quer se trate da beleza irretocável do homem mais lindo do mundo ou da pequena falha demasiadamente humana do outro, sempre haverá um desapontamento que a manterá como portadora mor da insatisfação. Temerosa em relação à possibilidade de ser feliz, – afasta-se de seu desejo, transformando defensivamente o mundo num poço de insatisfação para, com isso, – justificar para si que só existe o gozo insatisfeito. Trata-se portanto de defender-se inconscientemente desse gozo intolerável, inventando um cenário na fantasia que a torna vítima de um mundo infeliz. Não à toa, no famigerado caso Dora (paciente histérica) Freud (1905) foi categórico ao interrogá-la: “Qual a sua responsabilidade na desordem da qual se queixa?”

O eu do histérico, evidenciado pela presença imperativa da insatisfação, está sempre à espera de receber do Outro não a satisfação que o completa, e sim a não resposta que frustra.

De modo geral, o neurótico é aquele que acredita que a origem do seu sofrimento implica falta de amor quando, na verdade, – o que o faz sofrer, remonta à própria impossibilidade de amar o outro a partir de sua alteridade fundamental, ou seja, com falhas e faltas.

Quando a paixão, que está nesse primeiro período mergulhada num mar de fantasias, sofre as primeiras desilusões, é que o amor pode se instalar. No melhor dos cenários, dessa decepção revivida pode desabrochar o amor, se ambos conseguirem suportar a desilusão fundamental de não desejar a complementariedade correspondente ao estado de fusão inicial com o corpo materno, cuja proteção frente ao desamparo em relação às intempéries da vida era total.

De acordo com Kehl (1987), quando o amor ou a paixão matam, refletindo o protótipo do amor romântico, em recusa ao insosso amor burguês, é porque o amor exigiu para si manter-se apaixonado, não tolerando a frustração relativa à certeza da incompletude.

Com a alma despedaçada, Bovary não dispunha de recursos que lhe permitissem compreender o mundo que a cercava de modo a considerar seus limites e possibilidades. O termo bovarismo, que consiste na personalidade daquele que “se imagina muito diferente do que se é”, foi inventado para designar este estado de espírito característico da heroína de Flaubert. Frente à impossibilidade de transformar a vida real em vida livresca, Bovary assume as rédeas do seu destino ao ferir e queimar as vísceras com arsênico através de um ato suicida que marcou história, já que não suportou viver sob o domínio do vazio da vida real que a atormentava.

Freud, em 1930, exprimiu muito bem as fatalidades do amor: “Nunca estamos tão desprotegidos perante o sofrimento como quando amamos, e nunca, tão irremediavelmente infelizes, como quando perdemos a pessoa amada ou o seu amor.

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Rodrigo de Souza
Psicólogo, Psicanalista, Pós-graduado em Psicologia Hospitalar pela PUC-SP e Membro Pesquisador do Laboratório de Psicanálise, Saúde e Instituição (Lab-PSI) do IP-USP. Contato pelo e-mail: rotorisse@hotmail.com



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