Necessidades

Às vezes, admito, escrevo atendendo a um chamado da minha vaidade. Escapa como aquela selfie que a gente faz em frente a uma belíssima paisagem, fingindo ser sem querer, com uma luz adequada mascarando nossas imperfeições.

Às vezes escrevo porque quero garantir a mim mesmo o direito de não me calar. Vale qualquer coisa, um comentário irônico, a manifestação de uma genuína revolta, uma alegria, a graça que eu vi em alguma coisa e tenho vontade de dividir.

Também escrevo por tédio. Essa é a razão da qual menos me orgulho. E talvez seja por isso que encaixei estrategicamente no meio do texto.

Escrevo na ânsia de resgatar antigas memórias, maturá-las, traduzi-las. Me traduzir. Quando escrevo estou jogando no chão todas as mil peças do quebra-cabeças e juntando aos pouquinhos pra ver que desenho forma. Fantasio que um dia será possível emoldurar o quebra-cabeças e pendurá-lo na parede para exibi-lo com orgulho. Às vezes a poesia cai bem.

Escrevo todas as aventuras que não vivi. E a partir do momento em que as ponho no papel, ou no computador, que seja, elas passam a ser parte da minha história. Não dizem os estudos científicos que os sonhos que temos enquanto dormimos ficam registrados no nosso cérebro como memórias? Pois então.

Escrevo porque acontece. Parece que brota, sabe? É quase instinto. E eu sei que estou correndo todos os riscos de parecer pretensioso dizendo tudo isso. Mas se expor é mesmo correr todos os riscos de ser ridículo. Não há negociação. E posso, no meu dia a dia, estar sendo ridículo de tantas outras formas menos divertidas que acho que esse é um risco que vale a pena.

Escrevo às vezes sem nem saber o porquê. E tem que ter um porquê, afinal? Nem todas as necessidades se justificam.

Resumindo, não me ponho no papel de censurar uma necessidade minha. Nem que seja a de me expor gratuitamente. Estamos todos, de um modo ou de outro, querendo ser vistos, ouvidos, compreendidos. O que são as redes sociais senão um amontoado de vozes ecoando e necessidades se manifestando.

Imagem de capa: A. and I. Kruk/shutterstock

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Felipe Souza

O socorrense Felipe Souza descobriu cedo o seu interesse pela literatura e pela escrita. Nos primeiros anos da escola já era uma criança imaginativa que tinha especial interesse pelas aulas de Redação e de Língua Portuguesa. Na adolescência, já se arriscando a produzir seus próprios textos, participou de três edições do Mapa Cultural Paulista, tradicional concurso literário do Estado, inscrevendo seus contos, “Procura-se uma identidade, de 2005, “Rotina”, de 2006 e “(Minha vida cabe dentro de um parêntese)”, de 2007, que, em suas respectivas participações, conquistaram a primeira colocação na fase municipal da competição.

Felipe cursou Letras- Português e Inglês, na PUC-Campinas e trabalha desde novembro de 2016 produzindo conteúdo jornalístico para a Rádio Socorro.


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