Não sei se pulo a janela ou se saio pela porta dos fundos.

Estar na janela é ver de longe, protegido, amparado por paredes, teto, vidros, móveis, cortina fácil de fechar – esconder-se para espiar. É de onde se vê o que não quer se mostrar, o escondido, o que não se sabe olhado, vigiado. É um olhar surdo, sem diálogo, uma relação unilateral com o mundo. Estar na janela é como olhar pelas grades de uma prisão, ou ver o infinito através de um telescópio. É estar distante.É não se envolver.

Pela janela é possível assistir ao espetáculo do mundo: uma festa na rua – rir para o nada com todos, que observados, desconhecem quer olhar ou sorriso; uma confusão noquarteirão – sem torcida, “graças a deus” não estar por ali, mas os olhos estão ali aflitos de alívio; o delicado vagar das nuvens, ora figuras, ora abstratas, outras delírio – ninguém se contagiará com a loucura do seu olhar parado e da sua mente fluida para, curioso, parar e olhar também o magnífico slowmotion dos melhores momentos celestes.

Da janela não se pede licença, pode-se invadir todos os espaços sem tropeços, mas também não se chega a lugar nenhum. Todos os gatos são pardos, todos os rostos opacos, as luzes tremeluzentes, a vida passa, a janela fica – aberta ou fechada – inacessível. Esconderijo de quem quer viver e não encontra coragem. Coragem? Palavras de Rosa: é tudo o que a vida quer da gente.

Janelas digitais, plasmas, HDs, de onde é tudo tão fácil, degradação ou virtude, tudo o que nos passa diante dos olhos, não importa quantas imagens árduas ou comoventes, se a pele intacta, o rosto escondido não queimará vergonha, nem colorirá rubor de emoção capaz de engatar experiências, tudo isso que nos faz parecer impotentes – poderíamos nós? Suportar essas dores, encarar essas frustrações, alcançar esses patamares, hastear nossa bandeira na lua?

É que a vida é bela quando olhamos pela janela, mas na janela vida nossa não há. Viver é sair do quadrado vazado, fazer parte da paisagem antes admirada. Beleza sim, riscos mais, desafios infinitos, cansaço, medo, dor. Estar sujeito a tornados e tempestades, sem controle, sem visão panorâmica de nada. Dos limites do frame vácuo protegido, o olhar de águia precisa se habituar a ser pombo de voo desvairado entre a multidão. Comer farelos com gosto, desviar dos apressados, cagar nas cabeças erradas, deixar penas no caminho.

De tudo o mais, no risco do descontrole primordial de viver, estar sujeito à gentileza desconhecida, aos abraços e encontrões que se tornam encontros, a achar petróleo no esgoto, ganhar chocolates suíços, um ombro amigo, uma cerveja colega, um acaso para eternidade de instantes ou de uma vida, amor – por que não?, afetos infantes, você mesmo ali, surpreso: “e eu achando que estava na janela”, sua alma já havia pulado dela há tempos, só te faltava humildade para sair pela porta dos fundos e encontrá-la, afinal, que importa? Toda saída leva à vida… leva a vida…

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Paula Peregrina
Peregrina de territórios abstratos, graduou-se em Psicologia, trocou o mestrado e uma potencial carreira por uma aventura na Letras e acabou forasteireando nas artes. Cruzando por uma vida de territórios insólitos, perseveram a escrita, a poesia e o olhar crítico, cristalino e estrangeiro de todos os lugares.



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