Não deixe para amanhã o que você pode SER hoje.

‘Não deixe para amanhã o que você pode fazer hoje.’

Acho engraçado como esta frase geralmente possui uma conotação prática, comercial, protocolar. Ela parece significar: não deixe para amanhã o trabalho extra que você pode fazer hoje, a caixa cheia de e-mails que você pode responder, a ligação chata, o treino na academia, a visita ao salão de beleza, a aula de alemão, as contas a pagar, as burocracias e papeladas, a lista de compras, o sapato para a festa, a cerveja rápida no fim do dia, as mensagens no whatsApp, a foto no Instagram. Não deixe para amanhã as atividades que cabem neste dia, muitas vezes elas entram espremidas – num intervalo de almoço, numa sobreposição com outra tarefa – mas cabem. Nos tornamos maratonistas, quase sem fôlego, com tempo para tudo, mesmo que seja um tempinho curto e sem qualidade, mas com tempo para tudo o que devemos fazer, e muitas vezes sem tempo para o que poderia ser chamado de ‘nós mesmos’ ou ‘o que realmente importa’.

As milhares de atividades, que insistimos em não deixar para amanhã, consomem o nosso tempo por inteiro.

Mas para mim existe nesta frase ‘não deixe para amanhã o que você pode fazer hoje’ uma ideia totalmente diferente. A ideia de que a vida é hoje, de que o tempo é curto, de que não quero gastar meus dias correndo, provando para mim mesma ou para o mundo que dou conta de fazer um monte de tarefas, se eu tenho em minhas mãos a possibilidade de escolha. E até certo ponto eu posso sim escolher o que eu posso fazer hoje e o que não quero deixar para amanhã. É como disse Rubem Alves ‘(…) é preciso escolher. Porque o tempo foge. Não há tempo para tudo (…). É necessário aprender a arte de ‘abrir mão’ – a fim de nos dedicarmos àquilo que é essencial.’

Eu sei que posso deixar para amanhã a conta que não vence hoje, as compras que vão entulhar ainda mais o meu guarda-roupa, as mensagens bobas de um grupo do whatsapp, a irritação de um e-mail pouco importante. Mas não posso deixar para amanhã um poema que me surge quando perco (ganho!) 10 minutos olhando para uma árvore da janela. Não posso deixar para amanhã a conversa por telefone com minha mãe, a leitura de um livro, a vontade de um sorriso. Não dá para deixar para amanhã um sonho, um amigo que precisa de apoio, um texto bem escrito, uma refeição bem feita. Não posso deixar para amanhã o que quero que a vida seja, hoje!

Eu não deixo para amanhã o que eu posso SER hoje. Na medida do meu possível, hoje eu abro mão de atividades não essenciais, de bagagens pesadas, de encontros superficiais. Hoje eu abro mão de tudo que preenche essa minha curta existência neste mundo com coisas que não acrescentam e que me fazem estagnar. Hoje eu lapido meus dias e limpo minhas horas.

Sinto assim, como disse o poeta Mario Quintana:

‘Se me fosse dado, um dia, outra oportunidade, eu nem olhava o relógio. Seguiria sempre em frente e iria jogando pelo caminho a casca dourada  e inútil das horas. (…)’. Pois ‘a única falta que teremos será a desse tempo que, infelizmente, nunca mais voltará’.

Então, espero que nossas vidas sejam compostas de ‘hojes’ repletos de coisas essenciais e ‘amanhãs’ (que nunca chegam) guardando as sobras inúteis dos dias.

E que não deixemos para amanhã o que podemos fazer A VIDA ser hoje.

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Clara Baccarin
Clara Baccarin é poeta, escritora e tradutora. Autora do romance Castelos Tropicais (Ed. Chiado, 2015), e do livro de poemas Instruções para Lavar a Alma (Ed. Sempiterno, 2016). É uma contadora de histórias que adora poetizar o mundo. Escreve por amor e rebeldia: desconstruindo verdades, brincando com as palavras e ressignificando a vida.



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