My Beautiful Broken Brain: Entrevista com a diretora Sophie Robinson

Documentário exibido na Netflix conta a história de uma jovem mulher que sofreu um avc e lidou com isso de uma maneira que ninguém poderia prever.

Em março de 2011, aos 34 anos, a produtora Lotje Sodderland sofreu um grave acidente vascular cerebral em Londres que quase a matou. Quando acordou no hospital, dois dias depois, o mundo havia se transformado em algo totalmente novo para ela e, mesmo as mais simples tarefas, como falar ou entender o significado das palavras, exigiam grande esforço.

Passado o susto, Lotje percebeu que algo no seu cérebro tinha mudado. Seu estado normal de consciência agora incluía a visão de cores pulsantes e imagens distorcidas. No intuito de registrar e mostrar para outras pessoas o novo universo onde ela se encontrava, convidou a documentarista Sophie Robinson, e juntas construíram “My Beautiful Broken Brain” – uma narrativa não linear sobre alguém tentando reaprender a entender uma nova realidade e a contar histórias, incluindo a própria. Ao esforço das duas juntou-se o diretor David Lynch, que acabou por se tornar produtor executivo do filme, que estreou em março no Netflix.

Longe de ser apenas mais um documentário motivacional, “My Beautiful Broken Brain” usa de elementos poéticos, como luzes e sons para envolver e transportar o espectador para um universo singular e convida a pensar sobre a fragilidade da vida.

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foto divulgação

Confira agora a entrevista exclusiva com a diretora Sophie Robinson.

Gostaria que você começasse falando um pouco sobre a sua carreira antes de My Beautiful Broken Brain.

Eu faço documentários há 16 anos. Minha carreira começou na BBC, no Reino Unido, onde eu iniciei como pesquisadora e fiz carreira como diretora de documentários. Fiquei lá por volta de 11 anos trabalhando em documentários que eram sempre centrados em personagens poderosos e emotivos. Alguns dos meus filmes mais reconhecidos foram para a Horizon, o carro-chefe da BBC em séries sobre Ciências, com filmes como “Your Life in their Hands”, ‘Edge of Life’ and ‘What’s Killing our Bees?’. Depois, como freelancer, continuei a fazer filmes para a BBC e para o Discovery, também trabalhei com marcas e empresas como Skype, The V&A e Universal Music. Há cerca de um ano eu comecei minha própria produtora, a Sunshine Pictures, onde continuo a fazer documentários e curtas-metragens.

Como foi o primeiro contato entre vocês e o que fez você decidir entrar nessa?

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Sophie Robinson e Lotje- Fotografia de Eric Charbonneau

Conheci Lotje dois meses antes do derrame, quando ela trabalhava como produtora em uma agência de publicidade em Londres. Eu tinha ido falar com eles sobre um projeto que estavam fazendo e que tinha um “estilo documental”. Falamos muito sobre os filmes que eu havia feito, que quase sempre eram sobre vida e morte ou investigações acerca do cérebro humano. Toda esta informação deve ter ficado na mente de Lotje, porque ela entrou em contato comigo apenas alguns dias depois que ela acordou do coma induzido. Naquele estágio, a linguagem e a memória dela estavam ainda muito confusas, mas através de desenhos que ela fazia em pedaços de papel, a família acabou por se dar conta de que ela queria entrar em contato comigo. Me encontrei com ela duas semanas após o derrame, um dia depois dela ter recebido alta do hospital. Ela já tinha começado a se filmar pelo iPhone e perguntou se eu poderia ajudá-la a continuar documentando o que estava acontecendo com ela. Para ser honesta, nenhuma de nós sabia onde isso ia dar. Para Lotje, era um jeito de não esquecer o que estava acontecendo; para mim, já primeira entrevista que fizemos, a primeira que aparece no filme, foi tudo tão poderoso que eu resolvi seguir meus instintos. E estou muito feliz por ter feito isso.

É visível no filme o humor e a simpatia de Lotje ao enfrentar todo o processo de recuperação. Você acredita que isso influenciou de alguma maneira nos resultados?

Lotje é uma pessoa extraordinária – a meu ver, todos os seres humanos são. Quando enfrentamos situações que incluem vida e morte somos capazes de encontrar uma força interior que nenhum de nós imagina ser capaz de ter até que algo semelhante aconteça conosco.  No caso de Lotje, ela se apoiou em tal força para ajudá-la a superar. Eu acho que ela é alguém que tem um caráter forte, bastante focada, determinada e persistente e todas essas qualidades foram de grande ajuda – e ela tem um senso de humor que eu acho vital para qualquer coisa na vida. Ela também tem uma boa família e amigos ao redor e tal rede de apoio é vital. Então, eu acredito que foi uma combinação de todas estas coisas.

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De certa forma, ela precisou reaprender a contar histórias, começando com a própria tragédia. Reconstruir a si mesma dentro de uma perspectiva de recuperação não deve ter sido fácil e você teve um papel fundamental nisso. Como foi participar da montagem desse quebra-cabeça?

Ser informada por médicos que você não será mais capaz de contar sua própria história só pode ser algo devastador. Especialmente para alguém como Lotje, cuja vida era baseada em criar e contar histórias. Voltar a ser capaz de fazer isso era vital para a recuperação dela e por isso eu acho que fazer um filme contando ao mundo a história dela foi parte importante para reconstruir sua vida. A ideia inicial para este filme foi de Lotje. Eu não estava procurando por isto –  foi Lotje que acordou no hospital em um mundo totalmente novo e decidiu começar a filmar. Em algum ponto, naqueles primeiros dias, ela sabia que poderia precisar de ajuda e então pediu à família para me contatar. Foi Lotje quem me convidou. Então, este filme é muito mais dela. É a história dela. Desde o início foi uma colaboração. Nunca foi eu fazendo um filme sobre ela, éramos nós duas contando a história dela, juntas. E nunca teve um plano real. Acho que o que planejamos foi que iríamos filmar por 1 ano; que eu iria até ela e filmar quando pudesse, mas que ela poderia continuar registrando seu dia-a-dia pelo iPhone e que sempre poderíamos falar sobre como seria o filme. Mas a coisa toda foi tão orgânica que cresceu e mudou, da mesma forma que Lotje também cresceu e mudou naquele ano. Nós fizemos tudo ao estilo Lynch: sem regras ou fronteiras.

Lotje sempre foi uma pessoa muito independente e imagino como foi para ela perder a individualidade e ter de lidar com a situação de ficar internada por 3 meses, ficando assim limitada a uma rotina muito diferente da anterior. Perder a independência parece ter sido um dos golpes mais duros para ela, que levava uma vida tão agitada. Como foi esse processo?

Essa é uma pergunta que somente Lotje pode responder. Mas eu sei que perder sua identidade, sua independência, perder todos os traços que te fazem ser você deve ser aterrorizante. E sim, este período foi sem dúvida muito muito difícil para Lotje, foi quando ela precisou viver com sua mãe novamente e quando ela esteve em reabilitação no hospital. Mas Lotje voltou a morar sozinha pouco tempo depois – ela estava determinada a mostrar que ela podia fazer e tem se virado muito bem desde então.

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foto divulgação

De quem foi a ideia de gravar um vídeo para David Lynch? Vocês esperavam que tivesse o resultado que teve?

Como Lotje filmava seu cotidiano no iPhone, eu sempre tirava algumas semanas para ir à casa dela para baixar as filmagens em um drive e depois juntava cada parte. Depois de alguns meses eu comecei a encontrar mensagens que ela gravava para David Lynch. Ela fazia isso porque sempre descrevia a experiência da sua hemorragia cerebral como algo “Lynchiano” e começou a falar com ele em sua mente, um pouco como Christian Slater falava com Elvis em “Amor à Queima-Roupa”. Falamos sobre ele e acho que fui eu quem sugeriu a ideia de talvez mandarmos para ele uma das mensagens. Para ser honesta, naquela altura eu não tive nem por um minuto o pensamento de que ele poderia retornar. Achava que no máximo receberíamos uma mensagem do assistente dele dizendo “obrigado” ou algo parecido. E não sabíamos para onde enviar! Depois de várias tentativas de contato nós tentamos por outras rotas – e eis que um dia ele respondeu. Recebemos um email diretamente dele. Eu estava no meu escritório quando chegou. Eu estava em choque! A mensagem que Lotje havia enviado realmente mexeu com ele e daquele dia em diante Lotje continuou o contato com ele por vídeo. Ele realmente gostou dela.

Depois nós enviamos um excerto do filme e ele aprovou – ter a aprovação dele foi com certeza uma honra. Lotje foi visitá-lo em Los Angeles e ele concordou em colocar seu nome no filme. Nada disso foi planejado, mas claro que ficamos muito agradecidas. Como você pode imaginar, nome dele definitivamente fez toda diferença em termos de marketing.

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Lotje e David Lynch em cena do documentário- Foto divulgação.

Ainda que no filme o bom humor e a persistência deixem o clima mais leve, a iminência da morte, a impressão de que a qualquer momento isso pode acontecer com você surge vez ou outra. Você chegou a pensar muito nisso enquanto filmava?

O tempo todo! Eu tenho certa obsessão pela morte. Mas quando você faz um filme como este, você fica ainda mais alerta sobre sua própria mortalidade e as palavras “there but for the Grace of God go I” [em tradução literal: não fosse pela graça de Deus, seria eu] não saem da sua mente. Mas também me ensinou como aproveitar o momento, como viver no presente e como ser grata por tudo o que tenho.

Quais foram as maiores dificuldades que você encontrou durante a feitura do filme?

Levantar fundos para realizar o filme foi um trabalho difícil. Como nós decidimos fazê-lo de modo independente, foi algo que eu tive que fazer pela primeira vez na minha carreira. Antes disso eu fazia filmes com investidores que subiam a bordo logo no início do processo. Desta vez, nós tivemos que ir atrás do dinheiro e acabamos fazendo uma campanha de crowdfunding que teve sucesso, mas que deu trabalho.

As técnicas usadas para representar essa outra realidade que apenas Lotje vivenciava depois do derrame mostram como ela podia ser magnífica ou aterrorizante. Como surgiu a ideia de levar o espectador para dentro mundo tão particular?

Desde o início queríamos fazer um filme que não fosse sobre a recuperação de alguém. O jeito que ela descrevia aquele novo mundo era tão extraordinário que nós decidimos tentar recriá-lo. Lotje trabalhou junto com o pessoal da Outpost VFX, responsáveis pelos efeitos visuais. A diretora criativa, Elena Estevez Santos, imediatamente entendeu o que Lotje queria criar e então nós fomos capazes de explorar a ideia de ver o mundo do mesmo jeito que uma pessoa com percepção alterada vê. Claro que nós não íamos conseguir fazer exatamente igual, mas quisemos criar uma metáfora para que as pessoas entendessem como era. Desde que o filme foi lançado no Netflix recebemos muitos emails de pessoas que experimentaram a mesma sensação por conta de derrames ou epilepsia e que estavam muito gratas à Lotje por ela mostrar como é. Elas agora podiam mostrar às próprias famílias e amigos o que não conseguiam explicar com palavras. Estamos muito satisfeitas e felizes porque os efeitos proporcionaram algum benefício nesse sentido.

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No decorrer do filme, vemos que a Lotje buscou na meditação novas maneiras de entender e experimentar esse novo universo e aí entra a importância de David Lynch no processo. A transcendência sempre foi um tema presente durante o processo de produção do filme? A partir de que momento ela passou a ter um peso maior dentro da narrativa.

A meditação que Lotje faz no filme não é do tipo transcendental. O que aconteceu foi que ela não estava mais conseguindo lidar com o barulho de Londres. Por causa do dano no cérebro, tudo soa muito mais alto. Então, quando um amigo contou a ela que o centro de meditação em Bethnal Green era o lugar mais silencioso de Londres, Lotje começou a ir lá apenas para experimentar o silêncio. Depois começou a participar de algumas sessões de meditação e ouvir algumas das palestras, lá passou a ser o refúgio dela da loucura do mundo externo. Nós procuramos mostrar no filme como aquilo havia se tornado importante para ela.

Você costuma meditar?

Eu nunca havia meditado antes de fazer o filme, mas enquanto o fazia e, depois de ver o quando estava beneficiando Lotje, eu tentei e achei  muito útil. Tenho que admitir que já não medito faz um bom tempo – mas eu deveria!

Qual o maior aprendizado que você, enquanto diretora, teve durante a jornada de Lotje Sodderland?

Poder testemunhar e compartilhar de uma parte da recuperação de Lotje nos últimos anos, especialmente aquele após o derrame, tem sido um privilégio e um grande aprendizado –  não apenas como diretora, mas como pessoa. Observar como ela aprendeu a recomeçar em um mundo completamente novo só pode ser descrito como inspirador. Sua busca por entendimento não apenas pelo que aconteceu ao cérebro dela, mas também à sua mente, é algo que todos nós deveríamos fazer, independentemente de ter sofrido um dano cerebral ou não. Aprender o que importante para nós, aprender como fazer cada dia ter significado e valer a pena, aprender a parar por um minuto e olhar para o mundo ao redor e entender seu significado, saber quando descansar, aprender a ter foco, usar o tempo para entender nosso próprio comportamento e ações – todas estas coisas são fundamentais para viver. Ela me ensinou todas estas coisas. Eu não posso dizer que cumpro com elas todos os dias, mas Lotje certamente me ensinou a parar e pensar sobre elas muito mais do que era de costume.

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Lotje e o marido a quem conheceu e com quem se casou após o Avc. Foto divulgação.
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Jocê Rodrigues
É escritor, editor e repórter responsável pelo conteúdo jornalístico do CONTI outra.



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