Grama de plástico

E eu me deixando contaminar pelo verdinho brilhante e viçoso.

E eu querendo morar no lugar que não era meu só por parecer mais bonito e feliz.

E eu pensando no que de errado poderia estar fazendo por não ser capaz de apresentar um cenário irretocável.

E eu achando que só seria feliz no dia em que conquistasse a mesma perfeição… ou mais.

E eu consumindo todas as forças para ser da mesma maneira, para obter as mesmas conquistas, para tomar a ferro e fogo o jardim alheio.

E quando cheguei bem pertinho, já à beira da exaustão e frustração, reparei que era tudo de plástico. Que desânimo, que desilusão!

Mas como tudo na vida traz consigo a chance do aprendizado, olhei para trás, recuperando o fôlego e me preparando para a volta.

E ao olhar, de fora do meu lugar, percebi a lindeza do meu mundo, o que floresceu sem que eu desse a devida importância, o progresso do meu jardim, a sombra gostosa de uma vida inteira, de momentos e memórias.

Percebi meus afetos, minha companhias. Quem jamais me abandonou, ainda quando eu só tinha olhos para flores de plástico.

Percebi que algumas conquistas que plantei não vingaram, e assim foi melhor, pois engoliriam as menores e mais delicadas mudas da minha independência.

Só então notei a luz que nutre o meu terreno, a importância  das folhas mortas e secas, a vida que cresce e se alimenta de todas as imperfeições de um jardim natural, de uma risada sincera, de olho no olho, mãos entrelaçadas, vidas que escolhem ficar próximas para enfrentar a ventania e os temporais.

E eu que achava que nada poderia estar fora de lugar, se eu quisesse uma vida perfeita.

E persegui uma ilusão.

O jardim que eu cobiçava, era frio e de plástico.

No meu quintal bagunçado, é onde sou feliz.

 

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Emilia Freire
Administradora, dona de casa e da própria vida, gateira, escreve com muito prazer e pretende somente se (des)cobrir com palavras. As ditas, as escritas, as cantadas e até as caladas.



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