A fábula do que era suficiente

A FÁBULA DO QUE ERA SUFICIENTE

O dom da história – Clarissa Pinkola Estés, Editora Rocco

NESTA NOITE NÃO TEMOS NADA – começou o velho. – Mas em outras partes do mundo há sem dúvida pessoas que podem ter muito mais do que precisam. O que é suficiente? Vamos examinar essa pergunta.

Era uma vez, há muito tempo, na época em que nossos abençoados avós ainda viviam, uma moça pobre, porém linda, que era casada com um rapaz igualmente pobre e bonito. Estava chegando a época natalina, quando é costume a troca de presentes. Os jovens enfrentavam grande falta de dinheiro, pois uma guerra que grassava há muitos anos acabava de esmorecer.

Todos os carneiros haviam sido abatidos pelos soldados para que a carne lhes fosse tirada. Portanto, não havia lã nenhuma com a qual fazer fio. Sem fio, não havia como tecer; sem tear, não havia tecido; e, portanto, nenhum traje de inverno para substituir as roupas andrajosas. Quando podiam, as pessoas retalhavam dois pares de sapatos para fazer um único par de dar pena. Todo mundo usava todos os suéteres e coletes esfarrapados que tinha, de tal modo que as pessoas davam a impressão enganosa de estarem barrigudas, apesar de macilentas tanto acima quanto abaixo da cintura.

E então, como costuma acontecer quando a pior parte da guerra passou, as pessoas começaram a se esgueirar de volta ao que restava das suas casas. Como o cachorro que conhece seu próprio território, as pessoas voltavam para ficar, apesar das condições de penúria. Algumas das lavradoras começaram a consertar arados, substituindo a lâmina por cápsulas de obuses que aqueciam e moldavam à mão. Outras cortavam e sacudiam as plantas mortas à procura de sementes. O alfaiate implorava por alguns retalhos de pano para começar a costurar de novo e vendia nas ruas seus coletes e casacos feitos de retalhos. O padeiro moía à mão qualquer grão que pudesse cultivar em vasos quebrados na janela e, depois, moldava habilmente pãezinhos minúsculos, que vendia na porta da frente da sua casa. E, aos poucos, pessoas com a mente voltada para o comércio começaram a conseguir um pequeno sustento com a venda de pequenas ninharias, enquanto agradeciam pelo fato de que, por maiores que fossem os males da guerra, ela não havia conseguido apagar o sol. E assim seguia a vida na aldeia. Embora sem abundância, por toda parte ressurgiam os sinais mais simples da vida nova. E as pessoas tomavam enorme cuidado para proteger tudo que fosse frágil ou jovem.

Era assim que viviam a linda moça e o belo rapaz. Embora tivessem perdido muito com a guerra, eles ainda possuíam dois bens de valor. O rapaz havia conseguido não se desfazer do relógio de bolso do seu avô e sentia orgulho em informar as horas a quem lhe perguntasse. E a moça, apesar de mal nutrida há meses, ainda tinha uma longa e bela cabeleira que, quando ela soltava, tocava o chão em toda sua volta, cobrindo-a como um manto da pele mais valiosa. E assim, ricos dessa forma simples, o jovem casal levava a vida, tentando ganhar alguns centavos com a venda eventual de um pequeno nabo ou de uma maçã de inverno.

Velas de trapos e óleo estavam acesas nas vitrines da cidade inteira para o Natal. A noite chegava mais cedo, ficava mais tempo e a neve caía veloz. A moça queria tanto dar ao marido um presente de Natal, um presente grande, brilhante, lindo. Quando procurou nos bolsos, porém, ela só encontrou alguns poucos centavos. E, enquanto encarava a difícil situação em que estava sem o menor sinal de autocomiseração, ela não conseguiu deixar de chorar em silêncio.

Percebeu que as lágrimas não a ajudariam se ainda quisesse encontrar um presente para o marido, por isso secou o rosto e arquitetou um plano. Vestiu seu casaco surrado e calçou dois pares de luvas, cada um com dedos diferentes faltando. Saiu correndo pela porta e pela rua lamacenta, passou por todas as lojinhas com pouquíssima mercadoria  nas vitrines. Nada mais importava, porque ela agora tinha em mente um presente, um presente especial para o marido que trabalhava tanto tempo afinco para tão pouco conseguir trazer para casa.

Passou por pilhas de entulho, por escadas sem casas e desceu por um beco estreito até entrar num prédio sombrio. Subiu três lances da escada, correndo, a essa altura já sem fôlego e praticamente sem força suficiente para bater à porta.

Madame Sophie atendeu, usando um vison desprezível, comido de traças, em volta do pescoço. Seu cabelo era laranja e arrepiado em toda a volta da cabeça. Suas sobrancelhas eram como escovar cheias de fuligem. Ela era sem dúvida a velha mais estranha que já pisou na superfície da Terra. Ela, que antes da guerra fazia finas perucas para mulheres e homens ricos, estava, agora, reduzida a viver num apartamento de um cômodo sem calefação.

Os olhos de Madame Sophie cintilaram.

– Ah, você veio vender seu cabelo? – disse ela, arrulhando.

Ela e a moça barganharam muito até que afinal chegaram a um acordo. A moça se sentou na cadeira de madeira. Madame Sophie ergueu uma de suas pesadas tranças para ilumina-la. Ela brilhou como fio de seda. Com tesouras que pareciam ser do tamanho de enormes mandíbulas negras de ferro, Madame Sophie cortou os esplêndidos cachos da moça em três grandes tesouradas. As lindas madeixas caíram no chão e as lágrimas cintilantes da moça as acompanharam. Madame Sophie, como se fosse um roedor voraz, juntou o cabelo cortado.

– Tome seu dinheiro – rosnou a velha. Ela pôs umas moedas na mão da moça, empurrou-a para o corredor e bateu a porta.

E ponto final.

Apesar de passar por uma tortura dessas, a moça era guiada por sua visão interior, e seus olhos voltaram a se iluminar de entusiasmo. Correu pela rua até um homem que vendia correntes prateadas para relógios feitas de chumbo estanhado, mas que, sem dúvida, tinham uma aparência mais elegante do que a de um simples barbante comum. Ela lhe deu os centavos que tinha antes e os que ganhou com a venda do seu lindo cabelo. E, com mãos imundas, ele lhe entregou uma corrente para relógio. Ah, como de repente ela se encheu de alegria por ter um presente para dar ao seu amado. Pois praticamente correu para casa, com os pés mal tocando o chão, como o anjo que ela, em outro lugar e em outra época, poderia decerto ter sido.

Enquanto isso, o marido estava ocupado com seu próprio esforço para encontrar um presente para sua querida mulher. Ah, o que poderia ser? Qual seria o presente certo? Um comerciante lhe empurrou uma batata murcha. Não, não, isso não serviria. Outro exibiu um echarpe que, embora estivesse surrada, tinha cor bonita. Mas não, ela esconderia seus cabelos maravilhosos, e ele adorava tanto ver sua cabeleira com seus reflexos de rubi e ouro.

Na esquina seguinte, onde ventava muito, mais um mascate exibia nas palmas das mãos dois pentes simples e sem graça. Um era perfeito, ao outro faltava um dente. O rapaz soube que havia encontrado o presente perfeito.

– doze centavos por esses pentes elegantes?-sugeriu o vendedor.

– Mas eu não tenho doze centavos – disse o rapaz.

– Bem, o que é que você tem? – guinchou o homem. E começaram a pechinchar.

Enquanto isso, de volta ao minúsculo quarto alugado, a jovem molhou o cabelo com um pouquinho d’água e o forçou a formar ondinhas em volta do rosto. Sentou-se, então, para esperar o marido.

– Que ele ainda me ache bonita assim mesmo – sussurrava ela, numa oração silenciosa.

Logo ela ouviu seus passos na escada. Ele entrou apressado, pobre criatura, magro como um poste, com o nariz vermelho, os dedos congelados, mas com toda a disposição e a esperança de recém-nascido. E ali na soleira, ele parou petrificado, olhando perplexo para a mulher.

– Ai, você não gostou do meu cabelo, meu querido? Você não gostou? Bem, por favor, diga alguma coisa. Para dizer a verdade, eu o cortei para com isso conseguir algo de bom para você. Por favor, diga alguma coisa, meu amor.

O rapaz estava dilacerado entre a dor e o riso, mas, afinal, o humor o dominou.

– Minha querida – disse ele, dando-lhe um abraço. – Aqui etá seu presente de Natal.

Do bolso ele tirou os pentes. Por um instante, o rosto dela se iluminou, depois todas as suas feições se entristeceram e ela irrompeu em lagrimas, praticamente uivando de dor.

– Meu amor – ele a consolava-, seu cabelo vai voltar a crescer um dia, e esses pentes ficarão maravilhosos. Não vamos nos entristecer.

– Está bem, então – controlou-se ela.

Sua felicidade voltou quando ela mostrou o presente que tinha para ele.

– E este aqui é o seu presente, meu marido.

E na palma da sua mão estava a corrente nua, seu presente obtido com sacrifício para ele.

– Há! – protestou ele, começando de um salto a andar de um lado para o outro. – Você sabe que vendi meu relógio para comprar seus pentes?

– Você vendeu? Vendeu? – exclamou ela.

– Vendi! Vendi! – gritou ele.

Eles se abraçaram, riram e choraram juntos, fazendo promessas mútuas de que o futuro seria melhor, sem dúvida, era só esperar para ver.

Pois, vejam só, embora haja quem possa dizer que esses dois jovens foram tolos e imprudentes, eles eram de fato como os reis magos que procuravam o messias. Mesmo que os reis magos, com as melhores intenções, trouxessem presentes de ouro, incenso e mirra, no fundo, aquilo que eles traziam no coração era o que tinha mais valor: seu desejo e sua devoção.

E o jovem casal neste caso, como os reis magos, também foram sábios, pois deram o mais precioso de todos os presentes possíveis. Deram seu amor, seu amor mais verdadeiro um ao outro.

E ele foi suficiente.

Leia também o artigo Quanto lhe é suficiente? 

Você achou esse conteúdo relevante? Compartilhe!

COMPARTILHE
CONTI outra
As publicações do CONTI outra são desenvolvidas e selecionadas tendo em vista o conteúdo, a delicadeza e a simplicidade na transmissão das informações. Objetivamos a promoção de verdadeiras reflexões e o despertar de sentimentos. Sejam sempre bem-vindos! Josie Conti



COMENTÁRIOS