Especialista alerta para a banalização de termos psicológicos, em especial a Psicopatia

É bem provável que você já tenha se deparado com diversos artigos e livros sobre o tema. Nas prateleiras das livrarias, na televisão, nas revistas e jornais: sempre que o termo aparece, olhos brilham, sorrisos se abrem e ânimos se alteram.

Em certos contextos, como o político e o corporativo, características que lembram a psicopatia chegam a ser incentivadas e exaltadas. Agir com frieza excessiva e sem arrependimentos, saber tirar vantagens de trocas interpessoais, manipular e seduzir para ganhos pessoais são algumas delas.

É possível até mesmo encontrar na internet diversos testes que tentam avaliar essas características, alguns baseados nas famosas Escalas Hare – criadas pelo psicólogo canadense Robert Hare, tido por muitos como sumidade em questões que envolvem o Transtorno de Personalidade Antissocial (TPAS). No entanto, é preciso cuidado antes de sair por aí apontando o dedo e dizendo que você vê psicopatas o tempo todo.

Psicopatia é um assunto sério e deve ser levado para além dos serial killers que cativam multidões em séries e filmes.  É o que alerta a  psicóloga e professora universitária Tárcia Rita Davoglio, que pesquisa o desenvolvimento e o diagnóstico de traços de psicopatia  e comportamentos externalizantes e antissociais em populações jovens.

“Hoje se fala de psicopatia de uma forma tão banalizada, pejorativa e mal empregada que apenas denuncia o quanto as pessoas desconhecem o verdadeiro sentido do termo”, afirmou Tárcia, em entrevista à CONTI outra:

ATENÇÃO CASO A CASO

Não necessariamente uma pessoa que apresenta um funcionamento antissocial, ou mesmo um transtorno antissocial, possui as características necessárias para a presença de um funcionamento psicopático. É fundamental que se compreenda isso para desmistificar a ideia de que toda pessoa envolvida em transgressões, crimes ou delitos, mesmo os mais graves, seja um psicopata.

TESTES E DIAGNÓSTICOS

As escalas Hare são instrumentos que podem auxiliar na identificação de traços de psicopatia e por isso, em uma abordagem muito simplista, acabaram sendo divulgadas como sinônimo da psicopatia, sendo prioritariamente utilizadas no meio forense.  Por melhor que seja uma técnica ou um teste, sempre tem limitações, pois são ferramentas auxiliares e não podem ser utilizadas como único meio diagnóstico.

Além disso, há de considerar todas as exigências técnicas e éticas que uma avaliação psicológica demanda. Ninguém se imagina comprando um aparelho de ultrassonografia ou de imagem e saindo por ai fazendo exames e interpretando resultados sem antes se submeter a uma capacitação rigorosa para se qualificar para isso.

ADAPTAÇÃO SOCIAL

Do ponto de vista da cultura, o funcionamento psicopático é um modo de viver que a própria sociedade pode legitimar como ‘aceitável’, impregnando o indivíduo de valores específicos.

Alguém só pode ser “socialmente adaptado” se a sociedade em que está inserido assim o permitir. Veja, por exemplo, a questão da inclusão de pessoas com algum tipo de diferença física, cognitiva, psicológica ou mesmo socioeconômica. Ninguém é aceito como igual a menos que o outro assim o deseje, por vontade própria ou por força de uma norma. Então, nessa lógica, uma pessoa com traços de psicopatia só é incluída no contexto com naturalidade, se aqueles traços são naturalizados, são reconhecidos como aceitáveis.

Desse modo, nesse caso, o “socialmente adaptado” é apenas um eufemismo para dizermos que a sociedade está sendo complacente com um individuo manipulador e que, assim, esse sujeito nunca será desmascarado,”pego” pelos seus comportamentos, ele fica “bem” na sociedade.

INTERESSE DO GRANDE PÚBLICO 

Isso pode ser analisado sob muitas perspectivas. Acho que a população em geral sempre teve muita curiosidade sobre a saúde e a doença mental, mas infelizmente nem sempre por razões muito sensatas. Muitos termos clínicos, referentes aos diagnósticos de transtornos mentais  têm sido utilizados com uma frequência assustadora no trato social, como meros adjetivos, incorporados na linguagem cotidiana sem nenhuma cerimônia: bipolar, obsessivo, compulsivo, psicopata, esquizofrênico, etc..

DISTORÇÃO

De certo modo, com essa apropriação de uma terminologia “psi”  banaliza-se o que é o diferente, o que não é comum; com isso, as pessoas tanto tentam se apoderar de um conhecimento que elas de fato não têm para enfrentar o desconhecido (portanto, o assustador) como tentam criar uma linha divisória entre elas e o outro, ou seja, entre o saudável e o doente; então se ele é isso, logo eu não o sou, o que na maioria das vezes é uma interpretação bem equivocada, que só serve para negar o temor de o ser também.

ASSUNTO SÉRIO

Penso que é suficiente dizer para despertar um interesse genuíno no tema, que a psicopatia, do ponto de vista da saúde mental é um transtorno grave, altamente destrutivo,  que afeta a personalidade do indivíduo, compromete as relações interpessoais, causando muito sofrimento a quem convive com essa pessoa e que por isso deveria ser abordada com muita seriedade, com maiores investimentos na pesquisa e tratamento de suas causas e consequências.

Imagem de capa: cena do filme “Precisamos falar sobre Kevin”/ Copyright Fugu Filmverleih
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Jocê Rodrigues
É escritor, editor e repórter responsável pelo conteúdo jornalístico do CONTI outra.

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