Entenda como as relacões tóxicas são semelhantes à dependência de drogas

Por Lucy Rocha

Qual é a sua droga?

Você já foi viciado em droga? Eu já. De uma forma tão doentia que tudo em minha vida deixou de fazer sentido diante dela. Minha alegria, minha tristeza, meu tempo, minhas decisões, meus anseios, tudo no meu dia dependia dela. Se recebesse minha dose diária tudo ficava bem mas se me faltasse, me faltava o chão, o foco, a direção, a respiração, a vontade de acordar. Sem ela, me faltava eu. E você que respondeu sim, sabe bem do que eu estou falando. Ou talvez não. Vai depender do potencial para causar dependência que sua droga tinha. A minha tinha muito.

Agora que eu me abri com você, me diga: qual era a sua droga? Maconha, cocaína, heroína, LSD, crack ou alguma moderninha que eu não conheço? Me diga qual era e eu vou lhe dizer com toda minha convicção: não era mais forte do que a minha e nem mais debilitante. Nenhuma droga tem maior poder de destruição e causa tanta dependência no ser humano quanto o AMOR TÓXICO e, confesso, havia me tornado muito viciada nele.

Meu vício tomou conta de mim de tal forma que para me manter recebendo minhas doses diárias de “alegria”, negociei valores inegociáveis, perdi os sentidos, os significados, o contato com meus valores, com a minha dignidade e o meu autorrespeito. Eu me perdi e só me encontrava nela.

Seu mecanismo de ação é bem simples: um belo dia você é apresentado às primeiras doses que invariavelmente vão lhe trazer uma sensação jamais experimentada de bem estar e alegria. A partir daí tudo se desenvolve muito rápido e você passa a viver num paraíso de luz, leveza e riso, o que vai lhe deixar se perguntando o fez para merecer tanto carinho, tanta atenção, tanto….AMOR!

As sensações são tão ricas e genuínas que você abandona suas armas e embarca numa viagem extraordinária e definitiva. O seu mundo em preto e branco ganha cores, se renova e sua cabeca começa a construir sonhos lindos sem qualquer embasamento na realidade e você passa a se alimentar e viver exclusivamente deles e para eles.

E é quando você está embevecido, dependente daquela atenção e preguiçoso consigo mesmo que o amor tóxico mostra suas verdadeiras cores. É neste momento que todas as sensações boas do início se transformam. Sua face dócil assume uma face sombria e tudo o que era quente, gela; tudo que era claro, escuro; tudo o que era certeza, dúvida.

Ao experimentar um amor tóxico, todos os acessos aos seus sonhos e medos são liberados e tudo o que tiver sido aprendido sobre você durante aquele período será usado como armas letais com o objetivo único de humilhar e demonstrar quanto você é fraco e dependente; com o objetivo único de destruí-lo.

Numa reação natural, você fica confuso e, sem entender o que mudou, luta com todas as suas forças para encontrar de novo em sua droga aquela beleza que pouco antes ela trazia para sua vida. E que batalha inútil você trava! E que desfecho estarrecedor, medonho e tenebroso! Você busca a sua face mais linda, aquela guardada em sua memória, mas a única coisa que encontra é uma realidade horripilante, desconcertante e divorciada de tudo aquilo que um dia ela lhe proporcionou.

Num dado momento nada faz sentido e você vira um trapo, uma pseudo pessoa, um pedinte, um escravo faminto enquanto ela, a sua droga, posa soberana em seu reino obscuro e solitário, e observa você lá de cima de seu trono, de onde ora toca sua cabeça com alguma misericórdia, ora olha para você com desprezo e diz: “você é mesmo patético.”

Você pensa em correr para longe dali, mas não encontra nem a saída, nem a força, pelo simples fato que vez ou outra, ao perceber seu esforço para libertar-se, ela vai presenteá-lo com uma daquelas lindas sensações do início e você, ainda que por pouco tempo, se sentirá vivo.

É necessário um enorme esforço para libertar-se de um vício, mas é necessário um esforço imensurável para livrar-se do vício em um amor tóxico. É preciso colocar-se de joelhos e pedir a Deus que segure sua mão e lhe conduza para fora daquele quarto escuro e sem janelas. É necessário reconectar-se com a pessoa que você era antes daquilo. É preciso encarar a dura constatação de que você amou sua droga por todas as boas sensações que ela lhe trouxe, mas sua droga nunca o amou. Drogas não amam, simplesmente causam dependência e só saem da sua vida quando você estiver morto. Saem de sua vida para entrar na vida de outra pessoa e reiniciar o ciclo.

Haverá um período longo, negro e doloroso de abstinência e será necessário lutar contra a força irresistível que lhe fará por vezes esquecer dos horrores, ditando que você se agarre, como uma criança com medo de abandono, às boas lembranças que, dolorosamente, só existem na sua cabeça.

Saiba, porém, que vencida a abstinência brutal, é necessário lembrar que uma vez viciado existe a tendência ao vício permanece e, portanto, é preciso um exercício diário em que você deverá recordar constantemente a si mesmo que você é um indivíduo completo, que sua felicidade não se encontra em alguém ou lugar algum fora de você mesmo e que nenhuma fonte de amor é maior que a sua. Você precisa ser sua fonte inesgotável de AMOR PRÓPRIO.

Esse artigo foi publlicado originalmente na página Relações Tóxicas e está reproduzido na CONTI outra com a autorização da autora.

COMPARTILHE
Lucy Rocha
Advogada, personal coach e fascinada pelo estudo de transtornos de personalidade, administra a página Relações Tóxicas, na qual dá dicas e apoio a pessoas que vivem, viveram ou sobreviveram a uma relação abusiva. Seu maior prazer é escrever reflexões sobre a vida e sobre o ser humano.



COMENTÁRIOS