Ensinamentos do livro “O Retrato de Dorian Gray”, de Oscar Wilde, que você deveria levar a sério

O Retrato de Dorian Gray é um dos livros mais incríveis e polêmicos da Literatura Mundial e, acredite, tem motivo em ser. Interessante, real e revelador, o livro permite que leitor tenha momentos de reflexão sobre o comportamento humano, além de pensar no quão superficial a sociedade pode ser.

Com a famosa história de Dorian Gray e os crimes cometidos em nome de sua vaidade exagerada, Oscar Wilde trouxe à tona assuntos importantíssimos sobre o comportamento humano e apresentou a história da corrupção moral por meio de esteticismo. No livro, a beleza é tratada como ponto de partida para toda a maldade de Dorian Gray. Em nome dela, crimes são cometidos, suicídios realizados e traições premeditadas. Sem remorso, culpa ou medo, Dorian Gray só tinha um objetivo: manter-se jovem e belo.

Superficialmente, a história é assustadora. No entanto, quem conhece Oscar Wilde, sabe que a intenção do autor foi muito além dela. O autor tentou passar ensinamentos de ética, moral e princípios, discutidos em forma de diálogos dos seus personagens:

“O apaixonado começa iludindo-se a si próprio e acaba enganando os outros”.

Sejamos realistas, há uma grande verdade nisso. Quando nos apaixonamos vemos qualidade onde não tem, ficamos cegos aos defeitos e projetamos planos sem o aval do outro e, sabe, há até um pouco de saúde nisso. Ferreira Gullar dizia que fantasiar era necessário : “A arte existe porque a vida não basta”. O problema é fantasiar demais e depois entrar em um estado depressivo suicida.

Paixão foi feita para durar dias mesmo. Não dá para focar na pessoa como projeto de vida e esquecer que existe um mundo inteiro lá fora. Entenda que a paixão que dá certo é aquela que vira amor. A que não vira, deve ser breve e não deve deixar vestígios.

Quem não consegue resolver essa questão amorosa dentro de si, fica amargurado e transfere para todos os futuros relacionamentos uma espécie de “vingança amorosa” (como se o atual parceiro, tivesse culpa do que o anterior fez). Parece inacreditável, mas isso é mais comum do que você pode imaginar.

Paixão “mal resolvida” é paixão que não deveria ter acontecido. Então esqueça-a. Passado não é corrigido, não é mutável e não é importante. Então, deixe-o lá e encontre um novo presente.

Há coisas que são preciosas por não durarem”

Sim, isso inclui relacionamentos. A história foi perfeita, teve cenário e até trilha sonora, mas acabou. Sem motivos. Sem sofrimento. Sem explicação. Simples assim!

Algumas histórias não nasceram para durar mesmo. Elas aparecem para fazerem bem por um tempo, para mostrarem que há pessoas incríveis no mundo ou só para provarem que o amor existe mesmo, mas se elas durassem não seria tão perfeito como foi.

Às vezes um “não podemos continuar” é a melhor coisa a se ouvir. Dói na hora, mas protege a alma. Não é porque teve fim que perdeu a beleza. O acaso se faz perfeito imprevisibilidade mesmo.

Só entenda: foi bom, mas não era para ser.

“Um verdadeiro amigo te apunhala pela frente”

Na minha opinião, princípios e bom caráter deveriam ser natos, mas, infelizmente, não é. As pessoas desenvolvem essas qualidades convivendo com pessoas boas, mas as perdem conforme suas intenções de crescer na vida.

Há verdadeiros amigos que dariam a vida pelo outro, da mesma forma que há pessoas tão falsas que levariam o outro à morte sem nenhuma culpa (como acontece no livro em questão).

Um ensinamento explícito do livro é que a vaidade separa as amizades. Note: uma amizade verdadeira é quando um torce pelo outro. Quando o seu sucesso é motivo de comemoração, da mesma forma que a do que outro também é. Mas, quando o contrário acontece, as pessoas tendem a se distanciar e a se odiarem.

Verdadeiros amigos não invejam, torcem para o bem do próximo. Não mentem, aconselham. Não dizem “essa tempestade irá passar”, eles seguram o guarda-chuva e ajudam o outro a passar a tempestade. Quanto aos falsos eles são maliciosos, perigosos e sujos. São capazes de tudo para te destruir e acabar com a autoestima do “amigo” e suas vitórias são motivos de lamentações.

Que sua intuição seja a defesa da sua alma. Teremos inimigos escondidos e invejosos expostos sempre. A vida não é feita só por boas pessoas. Mas saiba diferenciar os bons dos maus, o joio do trigo.  Como dizia Danuza Leão: “já que é inevitável ter inimigos, a coisa melhor do mundo é ter um de verdade: que te odeie com lealdade e sinceridade -sem nenhum fingimento”.

“Existe muitas coisas que nós abandonaríamos se não receássemos que outras pessoas as pegassem”.

Nesse diálogo entre Dorian e seu amigo Basil, o protagonista falava sobre a fidelidade, sobre pessoas que se mantem em relacionamentos por comodismo ou medo de que outro tome “seu posto” no relacionamento.

O ser humano norteia suas atitudes em dois sentimentos: o apego e a rejeição. Opostos, manipulam o comportamento humano como quem controla as rédeas de um cavalo.

Muitas vezes, as pessoas não amam mais e querem terminar, porém, com medo de se arrependerem depois ou de imaginar o parceiro com outra pessoa, permanecem ali estáticos e infelizes. Se entendêssemos que não somos de ninguém, que a fidelidade é natural quando se ama e que temos a obrigação em sermos e fazermos o outro feliz, viveríamos melhor.

Quando a relação chega ao fim é necessário sim partir. E, claro que outras pessoas aparecerão e vocês serão felizes novamente. Qual o problema nisso? Por que esse apego ao que nunca foi seu? Somos donos de coisas materiais, não da vida alheia. Ser feliz e deixar o outro ser é uma questão de maturidade e bom senso. Liberte-se!

Por fim, ainda entre um diálogo entre Dorian Gray e Basil, temos um ensinamento que está mais para um tapa na cara do que para um conselho:  “O objetivo da vida é o desenvolvimento próprio, a total percepção da própria natureza, é para isso que cada um de nós vem ao mundo. Hoje em dia as pessoas têm medo de si próprias. Esqueceram o maior de todos os deveres, o dever para consigo mesmos. É verdade que são caridosas. Alimentam os esfomeados e vestem os pobres. Mas as suas próprias almas morrem de fome e estão nuas.”

Sem mais palavras (porque, depois da última citação, eu também fiquei sem), fica a recomendação de leitura ou releitura do livro. Os seus olhos podem enxergar além das letras e você pode aprender coisas que ninguém ensinou…

Imagem de capa: cena do filme “O Retrato de Dorian Gray”, 2009- reprodução

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Pamela Camocardi
A literatura vista por vários ângulos e apresentada de forma bem diferente.

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