Dos livros que somos

Somos como livros em nossa diversidade, beleza e profundidade. Carregamos um mundo dentro da gente e a cada passo escrevemos uma nova linha da nossa história.

Alguns de nós não se deixam vencer pelas tragédias da vida. Geralmente são pessoas inspiradoras que nos ensinam, com o modo de viver, como se refazer e reinventar um novo amanhã. São pessoas que nos auxiliam a entender melhor a nossa própria vida. São autoajuda pura!

Outras são como livros de crônicas, recheados de muitas vivências e experiências, e cada vez que nos encontramos com elas, entendemos que estão em um novo momento, vivendo outras coisas, experimentando o diferente, rodeadas por outras personagens.

Existem as que se entregam de corpo e alma ao ser amado e por ele largam tudo. Se atiram de cabeça nas relações e assumem para si todos os riscos de se deixar levar pelo coração, sem destino certo, apenas tendo em vista que ao lado do outro tudo vale a pena. São puro romance!

Há livros e pessoas mergulhadas em assuntos dos mais diversos tipos e ao olhar para a imensa prateleira da vida, na qual também estamos, e ao ver os exemplares serem puxados e reagrupados por afinidades, não é difícil entender que a vida é infinita em suas possibilidades.

Todos temos um propósito, contudo será que inevitavelmente existirá para cada livro um leitor? Para cada panela uma tampa? Para cada cadeira um corpo? Para cada vaso uma planta? Para cada coração um amor?

Nem sempre as coisas caminham como imaginamos. Podemos ser um livro que por alguma razão ainda não foi dedilhado. Podemos ter postergado nossa vida amorosa ao longo da vida, deixando o tempo passar desenfreado. Podemos ter restado na prateleira da vida. Em inglês britânico o termo para quem não encontrou sua alma gêmea até certa idade é “be on the shelf” em tradução livre “estar na prateleira”.

A princípio um livro sozinho em uma vasta prateleira remete irremediavelmente à solidão e chega até mesmo a incitar certa piedade. A expressão nos dá a impressão de que o livro lá ficou porque ninguém o quis ou lhe atribuiu interesse. Como se a vida lhe tivesse negado seu intuito. Como se ele dependesse unicamente da vontade curiosa ou interessada do outro para ser.

“Be on the shelf” ou “ficar para a titia” muitas vezes é uma condição apontada pelos que nos cercam como incômoda, haja visto que a solteirice gera certa comoção, principalmente em se tratando de mulheres mais velhas. Contudo hoje, em tempos modernos distantes dos casamentos arranjados, essa situação só é lamentável se não estamos felizes com ela e, se esse for o caso, sempre há tempo para assumir novas posições na prateleira da vida e de soprar para longe a solidão.

Podemos escrever e reescrever nossa história incontáveis vezes mudando nossos hábitos, sacudindo a poeira da capa e nos tornando aptos a assumir o controle de nossas vidas.

Somos capazes de transformar histórias tristes em bonitos ensinamentos e se atentos ao nosso enredo, trilhando-o como protagonistas, independente do gênero que escolhemos para nós, deixamos para trás qualquer visão piedosa e lastimosa da vida. Quando firmes em nossas aspirações, somos capazes de rasgar em pedaços impressões limitadas dos que fazem resenhas de nós sem nunca nos terem lido.

Existe um momento na vida em que é valido que paremos para pensar em qual história estamos contando ao mundo. E ao nos voltarmos demorados para nós poderemos enfim enxergar com clareza se a felicidade mora em continuar pelo mesmo caminho ou mudar radicalmente de rumo. O que não podemos esquecer é que existe um tempo para que essa nossa história seja escrita e é dentro dele que faremos ela digna de ser partilhada ou não.

Tudo vale a pena, desde que nossa alma não seja pequena, como já dizia Fernando Pessoa e que a pena da escrita esteja em nossas e não em outras mãos!

“Palavras são mágicas, são como encantamentos sublimes que nos levam para onde quisermos, seja esse onde um lugar ou uma pessoa”. Acompanhe a autora no Facebook pela sua comunidade Vanelli Doratioto – Alcova Moderna.

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Vanelli Doratioto
Vanelli Doratioto é uma escritora paulista, amante de museus, livros e pinturas que se deixa encantar facilmente pelo que há de mais genuíno nas pessoas. Ela acredita que palavras são mágicas, que através delas pode trazer pessoas, conceitos e lugares para bem pertinho do coração.



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