Dizer adeus a um amigo

Amigo é a cola que nos prende a cada etapa da existência. Amigos de infância, de colégio, de esporte e trabalho, amigos de copo, de loucuras, sem razão e sem noção. Os amigos nos situam, nos mostram onde estamos no momento, e, sem dúvida, por onde passamos e o que nos tornamos, inclusive por eles.

Dizer adeus a um amigo é renunciar obrigatoriamente ao seu convívio. É se dar conta de que, o que era uma escolha, no momento do adeus torna-se uma cruel imposição.

Amigos são aqueles que passaram por nossas vidas e deixaram lembranças, quase sempre deliciosas e divertidas, mas foram levados para outras estradas, outras escolhas, outros lugares. Amigos são os que frequentam a nossa vida e viraram nossos compadres, tios dos nossos filhos, conselheiros e enfermeiros para todas as horas. Amigos são também os que o mundo virtual nos apresenta, que de alguma forma se importam conosco, torcem por boas conquistas, fazem votos de aniversário, pensam em nós com carinho. E somos amigos de todos esses amigos na medida que retribuímos. Na parcela de tempo e vontade que destacamos para responder a uma mensagem, fazer uma ligação, uma visita, comparecer a uma festinha, encontrar na rua e dar um abração!

Diferente das outras formas de relacionamento, para os amigos não é preciso muito. Basta saber que o amigo existe e está tocando a vida como sonhou ou como pode, mas que é seu amigo, que ilustrou alguns dos seus dias e você guarda lembranças reais e a maioria delas é feliz! Até mesmo as que não foram, o tempo as transforma em piadas e lendas, e, quando contadas, se tornam o charme da amizade.

Dizer adeus a um amigo é ter a irremediável certeza de não haver mais nenhuma repetição dos momentos vividos. É sentir-se um pouco mais só no mundo, constatar a patética e tola certeza de que a vida escorre pelos dedos e nunca seremos capazes de segurá-la.

Dizer adeus a um amigo nos faz repensar o tempo. Como vivemos o tempo que temos. Como, de forma totalmente equivocada, já evitamos reencontros pelas mais variadas e infelizes desculpas.

E então é o dia de dizer adeus a um amigo. E nos deparamos no espelho com cara de órfãos, desolados e desorientados. Adultos que somos, vamos superar, mas, se há uma dor miserável de  intensa, essa é a dor, de dizer a adeus a um amigo. É dizer adeus a si mesmo, à parte que fomos em sua companhia, e, mesmo que ínfima no todo da vida, é a parte nos diz adeus e nos desfaz, a cada amigo que se vai.

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Emilia Freire
Administradora, dona de casa e da própria vida, gateira, escreve com muito prazer e pretende somente se (des)cobrir com palavras. As ditas, as escritas, as cantadas e até as caladas.



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