Desintoxicar o coração, desenvenenar a alma

A vida campestre sempre soa mais saudável, calma e relaxante do que a vida numa grande e barulhenta cidade. A paisagem bucólica leva a gente para um mundo do cantar de pássaros, cheiro de café, bolo de laranja, cachorro preguiçoso dormindo na varanda, mas, não é bem assim, e também não é o estilo de vida da maioria de nós. Vivemos a nossa eterna batalha urbana, driblando os outros passantes, comendo e falando ao telefone, enviando e-mails dentro do supermercado, exaurindo-nos e reclamando, ameaçando a tudo e a todos com um sumiço total, férias de tudo e de todos. E seguimos sempre sonhando com dias no campo ou na praia, durante longas horas de engarrafamento diário, prometendo-nos caminhadas em que respiraremos ar puro, muita meditação, alimentação leve e saudável, aquele soninho depois do almoço…

Acorda! Não ouviu a buzina?

Bem, voltando ao trabalho, o sonho não passa. Viver uns dias fora da rotina vira ideia fixa, daquelas que se sentam ao nosso lado e ficam. Mas, cá entre nós, correr para o campo, correr nos campos, na praia, na grama, de bicicleta ou de pés descalços, não é e nunca será garantia de harmonia, de encontro com a paz, se o verdadeiro caos for de origem mais íntima. Muitas vezes, o barulho, a poluição e as sirenes até aliviam as batalhas internas, sufocam as angústias que gritam.

A solução é desintoxicar o coração. Expelir as mágoas. Remover os sentimentos de perda, ciúmes, ódios e ressentimentos. Construir caminhos para escoar as lembranças ruins, descascar as paredes encrustadas de indiferença e desamor. Desenvenenar a alma. Desejar de bom grado a felicidade alheia, até mesmo a que ainda cremos nos fazer qualquer tipo de mal ou prejuízo, fechar os olhos sempre que vier o ímpeto de lançar maus olhares, neutralizar os azedumes das críticas e comentários invejosos que nos escapam, esfregar e bater até que saia tudo o que corrói e envenena.

Uma vez vencida essa parte crucial do detox, o passeio no campo será perfeito, as buzinas serão mais amenas, a rotina terá outra perspectiva. Mas, melhor do que o café fresquinho, a goiaba tirada do pé, ou o cochilo na hora do almoço, teremos uma alma nova em folha para desfrutar e compartilhar momentos mágicos a qualquer hora e em qualquer lugar. Afinal, lugar tranquilo é aquele que recebe bem a nossa paz.

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Emilia Freire
Administradora, dona de casa e da própria vida, gateira, escreve com muito prazer e pretende somente se (des)cobrir com palavras. As ditas, as escritas, as cantadas e até as caladas.



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