Decanto

Aproveita que um dia todo o encanto passa – Ameaçam os amargurados – Ficará a rotina em seus tons acinzentados, tornar-se-á o seu caminho previsível, um dia você simplesmente se acostumará a ela. Um dia ela simplesmente se acostumará a você, até não poder te enxergar mais.

Jamais compreendi o tom de ameaça, se me acostumar à presença dela é exatamente o que busco. Teremos sorte se um dia eu puder mesmo me tornar banal como uma cadeira de balanço. Se um dia deixar de ser um corpo estranho, deixar de ser visita, novidade, ânsia, para ser somente a companhia calma pros seus cotovelos cansados de esperar.

Aproveita, um dia o encanto passa – Repetem os amargurados. E tudo o que eu mais quero é desencantar-me diante dos seus olhos entediados. É ser silêncio calado pra acompanhar sua voz cada dia mais quietinha, como um canto por onde ninguém mais passa. Quero mesmo que todo o encanto nos deixe, que seu afago seja cada noite menos sedento de mim, quero ser tão costumeiro como o curvar dos galhos ou a mudança de opinião serena dos rios.

Sorte de quem puder atravessar os anos a ponto de deixar de ser encanto, sorte de quem puder amanhecer e perder o tom abobalhado dos amantes, o ar embriagado dos sonantes. Amanhecer, entende? Luz sobre a minha confusão.

Tudo o que eu mais quero é que o encanto passe, que os anos não nos perdoem, para que fique em mim a certeza de estar ao seu lado. E que como ameaçam os amargurados, você se acostume mesmo com a minha companhia, num acompanhar-te que nunca passa, lerdo e costumeiro.

E esse que fica quando todo o encanto decanta, e esse que se assenta junto com a rotina, não me ofenderia jamais. Depois que todo o encanto decanta, é ali que está o verdadeiro amor.

Imagem de capa: Ruslan Guzov/Shutterstock

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Diego Engenho Novo
Escritor, publicitário e filho da dona Betânia. Criador do blog Palavra Crônica, vive em São Paulo de onde escreve sobre relacionamentos e cotidiano.

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