Da timidez à fobia social

Por Maria Cristina Ramos Britto

Nestes tempos de conhecimento ao alcance de qualquer um que tenha acesso a internet, muitos mal-entendidos são divulgados. Se, por um lado, a democratização da informação representa um ganho, por diminuir distâncias e possibilitar a compreensão de uma imensa gama de assuntos, por outro, não se pode ignorar a disseminação de falsas notícias e noções deturpadas, principalmente na área da saúde, que causam confusão e sofrimento. Uma delas é o (auto)diagnóstico virtual: se você age, pensa, sente de determinadas formas, pronto!, há um transtorno esperando para definir seu comportamento e explicar seus problemas.

Viver em sociedade pressupõe regras de comportamento que possibilitam seu bom funcionamento, sem esquecer a independência e a autonomia necessárias ao bem-estar dos indivíduos que dela fazem parte. Então, se há normas de boa convivência, é preciso que elas respeitem as características de personalidade de cada sujeito. Se é preciso a todos se adaptar e ceder nos vários tipos de relação estabelecidas, aprender a se comunicar e a gerenciar conflitos, não é racional esperar que existam fórmulas prontas para a vida em grupo. As pessoas têm histórias e experiências que contribuirão para o seu modo de estar no mundo: mesmo vivências parecidas serão sentidas de acordo com a forma de perceber as situações.

É fácil observar que determinadas características são não apenas apreciadas, mas, em certas situações, significam pré-requisito para o desempenho funcional. Por exemplo, audácia e ousadia são requisitos para profissões como vendedor, afinal, como alguém tímido pode convencer outra pessoa a comprar o que não quer ou não precisa? Mas e quando a sociedade estende essas características a todos os setores da vida e começa a pressionar o tímido para que deixe de sê-lo, em nome de aceitação e sucesso? Por que pessoas tímidas e introvertidas incomodam tanto?

Numa sociedade competitiva, onde as fronteiras entre o individual e o coletivo se tornam cada vez mais indefinidas, com a superexposição proporcionada pela internet, onde qualquer personagem pode ser criado e os chamados perfis não necessariamente correspondem a quem se apresenta, sem dúvida, sobressai aquele que ousa mais, pois ali não é lugar para introvertidos, mesmo que não os rechace. Na vida real, fica ainda mais clara a estranheza. Por que você é tão calado? é uma das perguntas mais comuns feitas aos tímidos. E, dependendo da fragilidade emocional do questionado, começa a se insinuar a dúvida: será que há algo errado comigo? Para o (auto)diagnóstico de fobia social e, em muitos casos, posterior desenvolvimento de sintomas desse transtorno de ansiedade, é o primeiro passo.

Quando uma pessoa se vê constantemente criticada ou cobrada pelos que a cercam, seja família, amigos ou colegas de trabalho, dependendo da estrutura emocional, sua autoestima pode ficar abalada, com a consequente diminuição da autoconfiança, seguida de preocupação e ansiedade. É do ser humano desejar ser aceito, porque isso significa apreciação ou mesmo amor e a crítica representa exatamente o contrário, ou seja, a perda de aprovação por seus pares. E na passagem do que se é para o como os outros esperam que se comporte, pode estar se desenvolvendo um problema que não estava ali.

É normal temer situações desconhecidas, o problema está em evitar quaisquer interações sociais, por se acreditar desinteressante ou imaginar que está sob eterno escrutínio das pessoas, até as desconhecidas com quem se cruza na rua ou em eventos sociais. É natural o receio de vivenciar uma situação constrangedora ou mesmo humilhante, mas se preocupar com isso a ponto se fechar totalmente para o mundo não é saudável. É compreensível uma certa hesitação em iniciar conversas e interagir com estranhos, mas se considerar incapaz de fazê-lo por medo da rejeição sinaliza uma dificuldade que deve ser trabalhada.

Ser tímido torna-se problema quando se é dominado pela crença de que o mundo é um lugar inseguro e perigoso e, com isso, a existência fica paralisada no medo de falhar sem nem ao menos tentar. Se a vida vira uma vitrina, onde dela se é apenas observador, nunca personagem (protagonista, nem pensar!), sendo a única expectativa a de que nada aconteça, mesmo que seja algo bom, a timidez então, de característica de personalidade passa a sintoma a ser investigado.

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Maria Cristina Ramos Britto
Psicóloga com especialização em terapia cognitivo-comportamental, trabalha com obesidade, compulsão alimentar e outras compulsões, depressão, transtornos de ansiedade e tudo o mais que provoca sofrimento psíquico. Acredita que a terapia tem por objetivo possibilitar que as pessoas sejam mais conscientes de si mesmas e felizes. Atende no Rio de Janeiro. CRP 05/34753. Contatos através do blog Saúde Mente e Corpo.



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