Da inveja, da cobiça e do ciúme

Perceber o abuso e a injustiça é coisa que deixa sempre muita indignação. Ainda mais quando vem de quem foi escolhido para ser o parceiro de lutas e gozos de uma vida. É por aí que passeia um filme que sugestivamente tem o nome de Grandes Olhos. Muito porque a inveja é o personagem central, mas também porque é como ficaram conhecidas as crianças pintadas por Margaret Keane, cujo marido usurpava a autoria, sob o pretexto de melhor comercializar seu trabalho em uma sociedade machista dos anos 60, que não valorizava o ofício feminino.

Inveja é daquelas palavras bem feias, que alguns nem gostam de pronunciar, ninguém quer por perto e jamais admite de verdade que sente. Até entre os sete pecados, consegue ser menor. Zuenir Ventura quando foi convidado a escrever sobre o tema, de cara deu uma explicação boa pra isso: “O ódio espuma. A preguiça se derrama. A gula engorda. A avareza acumula. A luxúria se oferece. O orgulho brilha. Só a inveja se esconde.” Anda nas sombras e nem sempre vai sozinha. Tem alguns companheiros de armas de posse, como a cobiça e o ciúme, que por vezes até se confundem com ela, mas devem ser vistos na sua individual corpulência e mesquinhez.

A cobiça é, de modo geral, querer o que não se tem. É aceita e até cultivada. O seu problema está no meio para se conseguir, em tomar como alvo um algo alheio e, principalmente, na conjunção de ambos. Se você estabelece uma meta e corre atrás, beleza. Cobiça boa. Se pisa no que vai pela frente…

Os ciúmes – dito aqui no plural por ser sentimento complexo – relaciona-se com não querer perder o que se tem. Se para isso não são medidos esforços ou limites, é certa a ruína de todas as partes. Reza a lenda dos amores, que em dose pouca apimenta a relação, e há quem considere prova de zelo. Mas ciúme é coisa que amofina, mata em vida e jura em morte. Exige atenção.

Já a inveja… ah… essa não tem lado desculpável e muito menos cara boa. Inveja é querer que o outro não tenha… é só ficar feliz com a infelicidade alheia…. e agir para que isso aconteça. É daninha, covarde e mentirosa. Não faz caso e não tem lei. Transita etérea e disfarçada entre os desejos.

Se tudo é questão de querer, vale lembrar que permeando os anseios circulam as cismas. Um belo dia cisma-se de querer, ou que alguém quer o que é seu, ou de não querer que o outro tenha. Nascidas de uma ideia vista, sugerida ou imaginada, de repente se tornam pensamentos insistentes ou obstinados… e comandam o tal querer. Do mesmo modo que do nada pode-se aparecer na mira de algum amado, amigo oculto, inimigo declarado, desconhecido… e, sem motivo aparente, virar objeto de querências absurdas. Com redes e armadilhas tão disfarçadas em querer bem que, no quando do atino, já perdeu-se de si, dos seus sonhos, da sua fé.

É justo o que acontece no filme onde, a certa altura, Margaret começa a se dar conta da teia de dolo, dor e mentira em que se encontrava. Aos poucos ela vai percebendo que, artista talhada em todos os matizes, podia ter todo o nome e toda a cor. Marinho, cor de noite pousando no céu. Celeste, cor de raso profundo de mar. Marfim, bege areia, nuance cor de ar em movimento, vento… até o roxo cor de cobiça de quem é cinza cor de sombra! Pois eis onde estão e eis a questão: Cor incomoda quem não sabe cor. Salta aos olhos por onde tudo passa… sejam eles grandes, gordos ou mal olhados. De quebra ou de quebranto. Há que se estar alerta, com a figa no dedo pra quem for de encanto, com a reza pro santo pra quem se agarrar, com a paz bem no peito pra nunca envergar. E, principalmente, com olhos sempre nos olhos. Para que de todas as cismas que se aproximem, a mais persistente, seja uma menina teimosa e travessa que venha acordar toda manhã. E se chame esperança.
::: Margaret Ulbrich após o casamento passou a assinar Keane na vida oprimida, na arte que não imitava nada e nas telas que retratavam crianças tristes, com olhos enormes. Sem talento para negociação, insegura e com uma filha pra criar, conseguir um novo marido que lhe desse arremedo de afeto e cuidado, mesmo que lhe enganasse, ainda era lucro. Walter Keane, por sua vez, possuía um carisma cafajeste, mas foi um dos primeiros a descobrir como transformar arte em produto de massa. Roubava as meninas dos olhos, mas tinha visão. Nessa história real contada por um Tim Burton muito sutil, faltam justamente as suas cores singulares e o seu traçado forte. Atuações competentes de Amy Adams e nem tanto de Christoph Waltz, dão vida a uma história que merecia muito ser contada e merece tanto quanto ser vista. :::

Imagem de capa: Cena do filme “Grandes Olhos”, sobre a vida de Margaret Keane

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Paula Quinaud
Designer de Ambientes e Produtos, por profissão. Especialista em Arquitetura Contemporânea e Cinema, por interesse. Professora Universitária, por pura vocação. Mãe em tempo integral, por um amor imenso. Catadora de palavras, por necessidade absoluta.



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