Como se faz uma lembrança?

Lembranças são pedaços de vida? Acho que lembranças usam a vida como matéria prima, mas não apenas e não sempre. Lembranças são recortes de vida coloridos com sonhos, salpicados com imaginação. Lembranças são experiências vividas e experiências imaginadas.

De todos o momentos, no correr dos dias, o que fica guardado no nosso pensamento? O que vai parar naquela especial prateleira de nossa mente? E que fica sempre limpo das teias de aranha do esquecimento e acessível aos nosso olhos e aos nossos sentimentos?

O que compõe essas imagens e sensações que em mim permanecem?

Memória é membrana seletiva?

E que seleção é essa que me acompanha desde criança e que separa momentos joios de momentos trigo?

Membrana seletiva que guarda todas as cenas de um filme simples e despreza milhares de outros filmes inteiros.

Pensamento que organiza as diversas salas temáticas de minha galeria e que tem um gosto tão específico e único quanto caótico.

Qual é a medida de nossas lembranças?

Que às vezes transforma um acontecimento de poucos minuto em assunto para muitos sonhos. E outras vezes faz muitos dias guardarem-se em algum envelope pardo que vai ocupar o fundo de uma gaveta antiga e desconhecida.

Num ilógico método em que coisas voam e ficam para sempre e outras coisasestão sempre mas não tocam. Em que noites ocupam anos e anos se dissolvem no vento. Em que algumas pessoas pesam como plumas e brilham feito estrelas nesse olhar de dentro, nesse dançante e nunca igual álbum de memórias.

No fim do dia o que a gente leva dessas horas? No fim do ano o que retemos dessas semanas? No fim da vida que momentos poderão ser selecionados para compor o significativo trailer da nossa existência?

No fim até da nossa memória, se esse for o caso, o que fica gravado em nossa pele, em nossos sentidos, em nossos hábitos, nisso que somos antes do pensamento?

Como se faz uma lembrança?

Uma lembrança que sorri, uma lembrança que desperta, uma lembrança que significa uma pessoa?

Com abraços, beijos, olhares, lugares, cheiros, gostos?Com grandes eventos? Com singelezas?

Desconfio que a memória é feita de substância similar aos montes de areia, aos ciclos da lua, às mares oceânicas e às almas humanas. Ao vasculha-la, mudam-se as paisagens, mudam-se os tempos, mudam-se os pesos, mudam-se as histórias. Muda-se quem somos. E assim, numa bela ironia da vida, muda-se inclusive a própria memória.

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Clara Baccarin
Clara Baccarin é poeta, escritora e tradutora. Autora do romance Castelos Tropicais (Ed. Chiado, 2015), e do livro de poemas Instruções para Lavar a Alma (Ed. Sempiterno, 2016). É uma contadora de histórias que adora poetizar o mundo. Escreve por amor e rebeldia: desconstruindo verdades, brincando com as palavras e ressignificando a vida.



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