Como é o mundo do meu terceiro filho, Sávio, portador da Síndrome de Asperger

Por Lourival Antonio Cristofoletti

Amigos, estou compartilhando a informação sobre Asperger para que entendam um pouco sobre a vida de alguém acometido pela Síndrome. Vou me expressar amparado no que observo no meu filho: toma remédios controlados desde que nasceu, tem muita ansiedade e inocência, tem pensamentos repetitivos – muitas vezes obsessivos  e dificuldade de noção espacial (nem sempre sabe que direção tomar quando sai de casa).

Uma inquietação incrível para as manifestações artísticas: embora não tenha domínio das técnicas (transparece certa ingenuidade), quer fazer e experimentar diferentes possibilidades artísticas: compor músicas, criar gêneros musicais através de fusões dos já existentes, pesquisar vários idiomas (alemão, italiano, além dos tradicionais inglês e espanhol). É, também, quadrinista, desenhista, escultor, pesquisador das culturas japonesa, latina, popular, filosofia e de 78 gêneros musicais – e muitas outras coisas.

Coleciona cartas de jogos, lacres das latas de refrigerante, cartões telefônicos, tampas de garrafas, revistas, gibis, tudo em grande quantidade. Prefere comprar livros de pessoas que você não sabe que existem (e olha que eu leio muito), falando de assuntos que não chamariam a sua atenção (Legislação do Senado, por exemplo).

Somente vai sozinho a lugares já conhecidos e geralmente precisa ser acompanhado ou pelo menos deixado em eventos e depois alguém vai buscá-lo (muitas vezes esse cara sou eu): vai de ônibus a alguns lugares mais previsíveis e seguros. É tímido, tem dificuldade de comunicação com estranhos.

SV COSPLAY DANIEL BOONE
SV COSPLAY DANIEL BOONE

Adora participar dos “Animes” (não perde um e jeito nenhum: já o levei em Guarapari, Coqueiral de Itaparica, e nos mais variados bairros de Vitória) e eles acontecem quase que uma vez por mês: eu o levo às dez da manhã e ele fica lá até às dezenove horas.

Nesses eventos tem concurso Cosplay (os concorrentes vão fantasiados de personagens predominantemente de desenhos animados da cultura japonesa: ele participa de todos, alternando os personagens Daniel Boone, Harry Porter, Cowboy Italiano). Tem, também, Animekê (um tipo de karaokê oriental), estandes de vendas de camisetas com estampas de Personagens e Bandas afins, palcos de músicas pop e rock, dentre outras atrações, jogos de cartas tipo RPG (e um Bazar de troca e venda dessas cartas). Um público fiel desses eventos são os profissionais de T.I. (é comum eu encontrar quase uma dezena de alunos a cada evento).

Quando quer ir a algum lugar, não me pede diretamente (à exceção da ida aos Animes). Faz-me indagações do tipo: “Pai … sabe que ônibus eu pego para ir a tal lugar?” (e é no fim do mundo, em que teria que pegar 2 ou 3 ônibus); “Pai … você vai passar perto de tal lugar?”. E geralmente eu o levo de carro aonde quer ir. Para ele, quando discorda da mãe, em qualquer situação, eu sou o Juiz: minha decisão fica valendo, sem reclamar.

Não se limita a escrever estórias: ele cria uma personagem que fala castelhano uruguaio com outra que fala português castiço, só para dar um exemplo. Já escreveu centenas de histórias (e até há pouco tempo, registrava todas, para preservar os direitos autorais, pois tem uma preocupação de ser plagiado). Seus personagens têm nomes singulares e seu traço é inimitável e único: o dia em que eu tiver coragem vou providenciar a criação de produtos (canecas, camisetas) com a obra dele.

Leva muito a sério tudo o que eu falo (que vira Lei para ele): tenho consciência da minha imensa responsabilidade nesse aspecto e procuro ter a competência possível que minha maturidade permite. Pede as coisas para mim, mas não força a barra: tem um alto grau de aceitação quando ouve “Não”. Após minha resposta às suas perguntas frequentes, geralmente diz: “Certo, pai. Obrigado”.

Nem sempre pensa nas consequências das coisas que quer fazer ou faz. Quando eu lhe pergunto: “Pensou nesta consequência?” – alertando-o dos riscos -, invariavelmente diz: “Pior que não”. Quando lhe perguntam, você está bem, responde: ” Um pouco”.

Exige muito de mim, em termos de paciência: eu me esforço sempre, mas não com a competência necessária. Faz-me perguntas de toda ordem: escolha de nome e nacionalidade de personagens, qual vestimenta combina mais, apresenta-me três palavras para eu dizer a diferença entre elas, etc. Exige de mim variados exercícios de empatia, de orientá-lo quando faz alguma coisa errada nas redes sociais.

Às vezes fico indignado e tenho dificuldade de controlar minhas ações para não perder a linha com garotos imbecis que o perturbam, xingam, fazem Bullying, criam páginas fakes (falsas) dele, fazem posts depreciativos. Atormentam-no sem que ele tenha feito nada para provocá-los. O pior é que são covardes: quando eu os confronto ou falo com os seus pais, eles negam tudo.

Ele mora a uma distância de 200 metros de casa, com a mãe e tem apoio total dela para tudo (um amor incondicional, protetor),que faz o impossível por ele. Sávio recebe, também, muita atenção dos tios e primos maternos.

Tem uma vontade muito grande de “vencer” nessas atividades que executa e não aceita com naturalidade que parentes, principalmente os mais próximos, não se entendam bem e não gostem de ficar juntos. Pede a minha opinião para tudo: liga para mim mais de uma vez ao dia e me manda mensagens, e-mails, fazendo as consultas mais inusitadas. Sempre que acho necessário, dou uns “choques de realidade” nele, para que entenda as limitações que tem.

SV - Capas dos livros
“As aventuras dos investigadores Albert & Einstein”, revistas de Sávio

Eu brinco dizendo que, dentre outras habilidades, ele é portador de uma incrível “cultura inútil”, pois sabe detalhes das bandeiras dos países, curiosidades da língua portuguesa, conhece dados biográficos não tão relevantes de personalidades, pesquisa sobre história, geografia em geral, muitas vezes trilhando o viés dos assuntos, ou seja, coisas que passam despercebidas para a maioria.

Entendo que o Sávio seja um belo exemplo para os portadores de necessidades especiais, pois batalhou, por iniciativa própria e estará lançando – na noite do dia 27-03-15, sexta feira, nas instalações da Livraria Logos, no Shopping Norte-Sul, em Vitória/ES – dois livros (revistas em quadrinhos), em decorrência de seu projeto ter sido selecionado pela Lei Rubem Braga (ele que acreditou no potencial da obra e inscreveu esses dois trabalhos), que incentiva a publicação de livros de autores capixabas ou aqui radicados. No mínimo, ele é uma lição de vida.

Sábio capa
Na imagem eu e meu filho Sávio, hoje com 30 anos.

 

Saiba mais: Sávio Christi no Facebook

Lourival Antonio Cristofoletti, colunista Conti outra

LOURIVAL  ANTONIO CRISTOFOLETTI

LAC - Close - DSC0 1760Paulista de Rio Claro e residente em Vitória/ES. É mestre em Administração pela UnB – Universidade de Brasília, Analista Organizacional e Consultor em Recursos Humanos. Atualmente atua como professor na Graduação e MBA na FAESA – Faculdades Integradas Espírito-Santenses; Instrutor na UFES – Universidade Federal do ES e na ESESP– Escola de Governo do ES.

Livro publicado: COMPORTAMENTO: INQUIETAÇÕES & PONDERAÇÕES
Livraria Logos (vendas pelo site)

E-mail de contato: : lourival.cristof@uol.com.br
No Facebook: Lourival Antonio Cristofoletti No Instagram: lourivalcristofoletti

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