Como Caetano estacionando o carro Afeta Shakespeare

Segundo Caetano, você precisa saber da piscina, da margarina, da Carolina, da gasolina, mas segundo uma parte da imprensa, você precisa saber que o Caetano estacionou o carro no Leblon numa quinta-feira, no dia 10 de março de 2011. Só isso. A notícia é essa. Caetano Estacionou o Carro no Leblon. E não era uma denúncia, por ele ter estacionado em local proibido, nem um flagrante, por ele estar se dirigindo a um lugar suspeito. Ele apenas estacionou o carro e alguém, no portal Terra, achou que era notícia e publicou o fato com três fotos. Infelizmente, em nenhuma delas Caetano aparece estacionando o carro. Mas talvez tenham achado que pudesse ser uma redundância que não acrescentaria nada à notícia, sei lá, e temos que nos contentar em ver Caetano atravessando a rua depois de estacionar o carro. De qualquer forma, o dia 10 de março de 2011 entrou para a história do jornalismo brasileiro. Em 2015, teve até evento para comemorar os 4 anos do feito.

E é importante que se comemore, todos os anos a partir de agora. Não, obviamente, para celebrar o feito, mas para questionar. E são várias questões. Por que a cobertura jornalística da vida de celebridades fascina tanto? O quanto essa cobertura tem de impacto na sociedade?

Dá para levantar várias outras questões, mas acho que a gente pensar no impacto pode ser interessante, porque ele é maior do que se pode imaginar em um primeiro momento. É só dar uma olhada na resposta que o músico Herbie Hancock deu em uma entrevista de 2013, quando perguntaram por que o jazz não faz mais parte da cena pop:

Porque não é mais a música que importa. As pessoas não querem mais saber da música em si, mas sim de quem faz a música. O público está mais interessado nas celebridades e em como determinado artista é famoso do que na música. Mudou a maneira como o público se relaciona com a música. Ele não tem mais uma ligação transcendental com a música e sua qualidade. Quer apenas o glamour.

É triste. Mas não é recente. No século XVIII, quando o culto a Shakespeare começou com força, os esforços logo se concentraram em descobrir quem era o homem por trás da obra. E as descobertas não foram animadoras. Os poucos documentos relacionados a ele que foram encontrados, apontavam mais um homem de negócios, que lidava com grãos e fazia empréstimos com juros, do que um homem de teatro ou poeta sensível. Mesmo o seu testamento não ajudou muito, já que lá não há menção nenhuma a livros para serem distribuídos, mas em compensação, ele deixa para a sua mulher a “segunda melhor cama” da casa.

Logo, começaram a surgir as hipóteses de que aquele homem nascido em uma cidade pequena e rural, com acesso reduzido à educação, não podia ser o mesmo artista que escreveu uma obra onde aparecem, no total, 29.000 palavras diferentes, sendo 2035 palavras cunhadas ou registradas pela primeira vez por ele. (só para comparação, a versão do Rei Jaime da Bíblia, contemporâneo de Shakespeare, emprega somente 6.000 palavras diferentes). O autor tinha que ser alguém da nobreza ou um grande filósofo, evidentemente.

E assim, começou a busca por um candidato que melhor se encaixasse no perfil que se imaginava para o autor daquelas peças. Teorias foram desenvolvidas, conspirações imaginadas e muito tempo e esforço foram empregados para provar que Shakespeare era uma farsa. Até gente como Mark Twain e Freud embarcaram nessa, quando poderiam ter utilizado o tempo de forma mais produtiva. Ou não.

A última semana foi marcada por uma reforma ministerial, ameaças de Impeachment e novas denúncias contra Eduardo Cunha, mas segundo o ranking das notícias mais lidas do UOL, essas foram as que ficaram em primeiro lugar, a cada dia:

24/09/15 – Rafael Ilha desfalca A Fazenda 8 de última hora e é substituído

25/09/15 – Cantora é cotada como nova parceira de Chimbinha

26/09/15 – Mike Patton salta do palco e cai sobre grade no no Rock in Rio

27/09/15 – Protagonista morre no fim da 1ª fase de “Além do Tempo”

28/09/15 – Mães fazem ensaio nu com os filhos para mostrar a mulher real

29/09/15 – Yasmin Brunet nua chocou os pais? Nada! Eles viviam pelados

30/09/15 – Apresentadora de afiliada da Globo morre aos 32 anos

01/10/15 – Por engano, mulher envia foto do seio para o chefe por app

02/10/15 – “Eu sou o viagra dele”, afirma mulher de Stênio Garcia

03/10/15 – Jogador errou o pênalti, mas salvou time por saber a regra

Quem lê tanta notícia?, pergunta Caetano. Bom, pelo jeito, nós lemos. Mas não impunemente.      O que é bom, pra manter o samba de Roberto Silva, lançado em um disco de 1961, sempre atual. Ou não.

O Jornal da Morte

Veja só esse jornal, é o maior hospital
Porta voz do bang-bang e da policia central
Tresloucada, semi nua, jogou-se do 8º andar
Porque o noivo não comprava maconha pra ela fumar.

Um escândalo amoroso com os retratos do casal
Um bicheiro assassinado em decubito dorsal
Cada página é um grito, um homem caiu no mangue
Falta alguém espremer o jornal pra sair
Sangue, sangue, sangue….

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Fabio Brandi Torres
Nasceu 15 dias antes da chegada do Homem à Lua e é dramaturgo, roteirista, tradutor e produtor, mas conforme a ocasião, também pode ser operador de luz, de áudio, bilheteiro, administrador e contrarregra, ainda que não tenha sido camareiro, mas por pura falta de oportunidade. Questão de tempo, talvez, já que quando se faz teatro por aqui, sempre se cai na metáfora futebolística do bater escanteio e correr pra cabecear. Aliás, se aposentou do futebol na década de 80, quando morava em Campos do Jordão, depois de uma derrota por 6×0 para o time de uma escola adversária, cujo nome não se recorda. Ele era o goleiro.



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