Até quando a ideologia da vergonha vai prevalecer no trabalho?

A ideologia da vergonha é um termo usado por Christophe Dejours, um dos mais importantes estudiosos sobre psicodinâmica e psicopatologia do trabalho para falar de uma ideologia elaborada coletivamente e defensivamente contra a ansiedade de estar doente ou de estar num corpo incapacitado.

Ela é o reflexo da dificuldade de se aceitar a doença no espaço de trabalho. Pois, o corpo só é aceito quando saudável e produtivo.

Isso ocorre para qualquer tipo de doença, mas o peso é maior quando se trata de uma dor ou de problemas emocionais.

Diferente de uma doença física que pode ser comprovada por exames de sangue, imagens, etc., as doenças emocionais são muitas vezes, invisíveis aos olhos e por isso carregam um grande estigma e preconceito. Em muitos casos, a pessoa é desacreditada em sua dor, sua depressão é tratada como frescura, sua fobia e comportamentos compulsivos ganham apelidos e viram motivos de piadas. Outras vezes, os sintomas são confundidos com uma personalidade excêntrica, ou a agressividade como um comportamento competitivo e até desejado no ambiente de trabalho. Estresse até virou algo comum, como se fizesse parte da rotina e da normalidade da vida!

Quando alguém adoece mentalmente, muitas vezes se sente ainda pior por ter que esconder dos outros a sua dor e parecer bem ou forte. As exigências sociais, os papéis que devemos desempenhar, o risco da exposição e até a perda do emprego podem provocar isolamento e fazer com que a pessoa resista em procurar ajuda.

– Vai passar! – ela pensa.

– Levanta essa cabeça! Se anima! Olha as coisas que você tem! Vai passar! – ela ouve.

E se passa, o sofrimento era então uma invenção, era frescura! E se continua, a pessoa pode passa a ser mal vista no trabalho, piorando ainda mais o cenário estabelecido. Sente-se um “Fraco”!

A negação do próprio sofrimento leva a pessoa a uma dificuldade em ter uma atitude terapêutica que ajude na luta contra o problema. E o que vemos no consultório é que, muitas vezes, quando a pessoa procura um tratamento a situação já está muito mais exacerbada. O limite já foi excedido levando a um sofrimento maior que pode alcançar o corpo físico.

O que acontece é que não se trata apenas de evitar as doenças, mas de domesticá-las, contê-las, controlá-las e viver com elas. Tenta-se evitar ao máximo a constatação de que corpo e mente não estão mais sadios, até porque um não está separado do outro, o Ser adoece por inteiro!

O afastamento do corpo do trabalho, as mudanças decorrentes da doença e o desemprego tornam-se um fantasma que assombra em tempo integral. Traz a consciência que somos apenas humanos e como tal, temos nossos limites!

As empresas cobram produção, metas, acertos e não toleram falhas. O funcionário sente-se apenas mais um, igual à todos os outros colegas de trabalho. Corre atrás de cumprir suas metas, trabalha de 10 a 12 horas por dia para atingir o que lhe é exigido e não demonstrar fraqueza.  Ao chegar em casa, cansado, continua com o pensamento no trabalho e não consegue se desligar sentindo-se ainda sob pressão. Acaba por isolar-se da família, pois esta não o compreende e “atrapalha” seu raciocínio. Ele precisa cada dia, mais e mais, mostrar seu comprometimento no trabalho sob o risco de perder o emprego e não conseguir arcar com suas despesas e manter o status. Pagar uma excelente escola particular para os filhos, a casa na praia, os carros, as viagens, e tudo mais. Não pode falhar, mas negligencia a si próprio.

Até que soa um alarme! Algo não vai bem! O que fazer? A empresa precisa de alguém produtivo e não de alguém adoecido e em sofrimento.

Temos aqui a doença como sendo o aspecto contrário do trabalho. E assim, o profissional sente-se envergonhado por não se sentir encaixado, por sentir-se improdutivo, não pertencer ao grupo dos “normais”.

Mas precisamos encarar os fatos reais! As pessoas estão adoecendo cada vez mais! As doenças emocionais já estão entre as três maiores causas de afastamento do trabalho nos últimos anos e a expectativa esse percentual aumente ainda mais.

Precisamos repensar a maneira como tratamos a saúde emocional nas organizações e na nossa sociedade. Precisamos evitar o sub tratamento ou a eclosão de atitudes desmedidas e desesperadas porque não houve espaço para a escuta e para o acolhimento.

Do mesmo jeito que “o trabalho enobrece o homem”, a saúde física e emocional é imprescindível para que ele desempenhe bem sua tarefa e possa contribuir para o futuro da nossa sociedade.

 Nota da página: Psique em Equilíbrio é uma parceria Conti outra.

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Autoras:

lillian marin zucchelliLilian Marin Zuchelli – Psicóloga Clínica e Psicoterapeuta Junguiana pela PUC-SP. Especialista em Psicoterapia de Abordagem Junguiana associada à Técnicas de Trabalho Corporal pelo Institiuto Sedes Sapientiae. CRP: 06/23768

 

 

marcela alice biancoMarcela Alice Bianco – Psicóloga Clínica e Psicoterapeuta Junguiana formada pela UFSCar. Especialista em Psicoterapia de Abordagem Junguiana associada à Técnicas de Trabalho Corporal pelo Sedes Sapientiae. CRP: 06/77338

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