Apartheid e Carnaval

Por Adriana Vitória

Não posso imaginar nenhum cidadão da cidade do Rio de Janeiro que tenha conseguido crescer sem carregar uma dor interna causada pelo descaso e pela discrepante diferença social. Passei a minha infância sem conseguir entender porque podíamos viver com tanto conforto enquanto as crianças que viviam nos morros vizinhos a nossa casa, mal tinham o que comer ou vestir.

Na minha adolescência a situação foi se agravando, pois as favelas só aumentavam. Governo após governo, a situação sempre piorava. Fique completamente chocada certo dia ao ver três crianças passando por um restaurante. De repente, elas meteram as mãos no prato de um cliente distraído sentado na varanda, pegarem a comida do prato as pressas e enfiarem na boca quase em desespero.

Na época, a maioria dos moradores das favelas era de negros. Na década de oitenta, continuavam sendo e assim a realidade é perpetuada até hoje. Os mesmos a quem, desde a colônia, foi negado o direito a educação, a dignidade e a vida. Quinhentos anos depois eles continuam sendo mortos, torturados e desrespeitados. Milhares de jovens morrem assassinados todos os dias, mas não são noticia. Hoje esses crimes passaram quase a ser um alivio pra muitos que os acham um incomodo. A zona sul da cidade não os quer em “suas” praias”, suas praças ou calçadas mas os tolera durante a maior festa do país senão do mundo, o carnaval.

Vivemos um apartheid há cinco séculos. Até hoje é raro, não só no Rio, mas em todo pais, ver um negro nas escolas privadas, universidades, dirigindo um bom carro ou em bons cargos profissionais e o país, acostumado a essa hipocrisia, aparenta não se lembrar, por falta de conhecimento ou por não querer mesmo, de que o Brasil é terra onde o europeu teve a “audácia” de se misturar aos nativos e escravos criando, assim, o povo brasileiro, portanto, com raras exceções, somos todos um pouco “raspa do mesmo tacho”.

A história do carnaval no Brasil iniciou-se no período colonial. Uma das primeiras manifestações carnavalescas foi o entrudo, uma festa de origem portuguesa que na colônia era praticada pelos escravos.

Foram os  negros nos deram o ritmo, o samba, o vatapá, o candomblé, a yemanjá, a capoeira e um número infinito de coisas maravilhosas da nossa cultura, além, é claro, do que hoje é o carnaval no país que, mesmo não tendo origem brasileira, tem aqui a mais linda e glamorosa festa realizada em todo o mundo.

O carnaval que conhecemos, que atrai milhares de turistas todos os anos, que fornece milhares de empregos, que tira jovens das drogas e da vida precária, que gera milhões para governos corruptos e absolutamente negligentes foi, e é ainda é feito pelos descendentes de africanos, pela maioria favelada, que até hoje, boa parte das classes alta e média, insiste em escravizar e a tratar com desprezo 360 dias do ano, exceto quando pretendem sublimar seus preconceitos para poder participar da festa “deles”. E durante estes quatro dias de folia, os papéis podem ser invertidos. “Brancos” se fingem de negros e “negros”, de senhores. É o grande momento quando o negro, generosamente, recebe o branco que passa o ano o rejeitando, em sua escola.

São horas preciosas, onde eles não morrem de bala perdida, não fogem da policia ou usam o elevador de serviço. São os raros momentos do ano onde podem andar de cabeça erguida.

Aos olhos do mundo, somos todos pardos fazendo um grande espetáculo, mas aos olhos da nossa mídia perversa e hipócrita, o foco da festa são as celebridades e os convidados “brancos”. Além disso, quem faz a festa e não desfila não tem como assistir. Alguém já viu algum artesão da festa nos caros camarotes do samba?

Somos um país medieval de coronéis e senhores de engenho, mas como dizia o sábio Milton Santos, geógrafo e pensador, um dos raros negros deste país a conseguir escapar deste perverso sistema: ” Existem apenas duas classes sociais, a dos que não comem e a dos que não dormem com medo da revolução dos que não comem.” Isso definiria a população do Rio de Janeiro que hoje em dia não dorme mesmo.

Amo essa mistura de gente, raças e cores, mas não suporto mais tanta injustiça.

Estamos no meio de uma guerra civil interrompida até quarta feira de cinzas. Mas fazendo minhas as palavras de Miltom Santos: “Os negros ainda sorriem. Preocupa-me o momento que começarem a ranger os dentes.” Este dia acho que chegou.

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Na imagem, um exemplo da beleza do povo e do espetáculo que é o carnaval brasileiro.
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Adriana Vitoria
Mineira de alma e carioca de coração, a artista plástica, escritora e designer autodidata Adriana Vitória deixou Belo Horizonte com a família aos seis meses para morar no Rio de Janeiro. Se profissionalizou em canto, línguas e organização de eventos até que saiu pelo mundo sedenta por ampliar seus horizontes. Viveu na Inglaterra, França, Portugal, Itália e Estados Unidos. Cresceu em meio à natureza, nas montanhas de Minas, Teresópolis, Visconde de Mauá, e do próprio Rio. Protetora apaixonada da Mata Atlântica e das tribos ao redor do mundo, desde a infância, buscou formas de cuidar e falar deste frágil ambiente e dos seres únicos que nele vivem.



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