Aos viajantes, com amor

Por Bia Dourado

São poucos os que sabem viajar. São muitos os que viajam.

Viajante não precisa de distância para se encantar com os detalhes. Viajante valoriza a história, a geografia, o sotaque do bairro. Viajante dança. Celebra o outro. Se desmancha para fazer parte da paisagem.

Viajante e criança partilham esse estado constante de despertar o entorno e chamar para brincar. Se engana aquele que pensa que é preciso passaporte. Viajar para dentro é muito mais difícil, bonito e transformador.

Arrisco dizer que há uma função social desse viajante que não sai do lugar, ainda que entenda que ele não faz pelos outros. Ele, por consequência ou generosidade, nos empresta o óculos da poesia para que enxerguemos nossa própria vida. Esse óculos corrige um estrabismo muito comum, que arrasta nosso olho direito para o umbigo e o esquerdo para o vizinho.

Eu só ando por dentro de mim; se fui em outro lugar foi pra me ver (Manoel de Barros)

Boa parte das pessoas mais interessantes que conheci, viajaram muito pouco. Possivelmente nunca deixaram o país. Elas não sentiram a necessidade de conhecer a Torre Eiffel. Não estiveram no Coliseu. Nunca atribuíram felicidade à New York. Mas elas abraçam negros, pardos, brancos e coloridos, sem precisar filosofar a respeito. Elas riem de histórias de amor, sem questionar gêneros. Elas contam causos, ignorando os cursos de Storytelling. Elas não atravessaram oceanos para conhecer o diferente, pois o diferente esta à volta, divertindo a todo instante.

E antes que você me questione se o viajante de bairro é diferente do viajante de avião, adianto que não. Ambos são guiados pela estrela da curiosidade que os faz sentir plenamente vivos no Pari ou em Bogotá. E que alegria quando eles se encontram e o macro mundo festeja o micro. E vice e versa. E versa e vice. É prosa e poesia sem fim.

A grande diferença está no viajante e naquele que percorre distâncias.

Se você só fez fotos, sem saber a história daquele lugar, só percorreu distâncias. Se sabe falar a língua mas não a usou para fazer uma amizade que seja, só percorreu distâncias. Se julgou o que é diferente e buscou apenas as vantagens do destino por esquecer de se despir dos óculos de lentes colonizadoras, só percorreu distâncias. Se a sua viagem te fez sentir superior aos seus conhecidos, por ter ido além deles, te garanto: você só percorreu distâncias. Se você não se sentiu pequeno diante de alguma beleza maior. Se você não chorou ao superar os próprios preconceitos. Se não se permitiu confiar em desconhecidos. Se não ajudou ninguém no caminho… amigo, você tem muito o que viajar ainda. A notícia boa é que não precisa ir longe para começar.

Texto reproduzido com a autorização da autora.

Para mais textos da jornalista Bia Dourado visite o Blog Circo Dourado.

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