Ao amor que ainda vai chegar

Entra. Não precisa tirar os sapatos. Colore a casa com o perfume da tua presença, enche de vida a sala com o balançar do teu vestido, com o piscar dos teus olhos. Faz de cada canto um canteiro onde ficarão plantadas as flores dos nossos dias, das nossas horas passadas ao lado um do outro.

Entra e faz do meu medo do escuro motivo pra ficar.

Entra e faz dos meus cabelos e da minha barba ninhos para os teus dedos-passarinhos.

Entra pra fazer morar aqui essa parte de mim que voluntariamente se mudou pra você.

Entra e revira a minha estante, folheia meus livros, bagunça meus discos.

Entra e pinta as paredes da cor dos teus olhos, para que assim eu não sinta tanta saudade quando você não estiver.

Entra e adoça o meu café com teu beijo.

Entra e assina minhas cartas de amor.

Entra e abre as cortinas pra deixar respirar a poeira da tua ausência.

Entra, anoitece o meu dia, acorda a minha noite e arrepia a minha pele com um “bom dia” ao pé do ouvido.

Entra e faz do mundo um lugar melhor, ainda que dor e sofrimento continuem a existir do lado de fora.

Entra e seja o meu calcanhar de Aquiles, minha kriptonita.

Entra e do mesmo jeito seja minha força e motivo de assobio.

Entra e seja aquilo que bem entender, tudo o que quiser ser ou sentir.

Entra e, antes de ser minha, seja inteiramente tua.

 

Entra, e não precisa tirar os sapatos… Só o vestido.

COMPARTILHE
Jocê Rodrigues
É escritor, editor e repórter responsável pelo conteúdo jornalístico do CONTI outra.



COMENTÁRIOS