Amor de Doriana

Família reunida de manhã cedinho, sorrisos pra todo lado, “bom dia” pra lá, “me passa o suco” pra cá, uma anedota nada suja sobre algum evento cotidiano, cachorro deitado na cama do gato, gato deitado em cima do cachorro, um sol bonito de dar dó entrando pela imensa porta de vidro da cozinha e iluminando pão, manteiga, queijo. Quem é que não se lembra de ter visto pelo menos uma vez essa cena na televisão em um comercial de margarina?

Tudo muito perfeito, muito limpo, muito certinho. Cadê a remela nos olhos, o bafinho matinal que faz a pessoa do lado virar o rosto quase desmaiando e aquela cavucadinha marota nas cavidades nasais? Cadê as pessoas de verdade dessa casa, minha gente? É isso que me pergunto toda vez que me deparo com essas cenas.

Não gosto das coisas certinhas, delicadinhas, bonitinhas e outras coisas mais inhas. Na verdade, seria melhor dizer que eu não gostava dessas coisas (isso, no pretérito mesmo). Acontece que bastou ela me mostrar essas coisas do jeito dela e tudo fez sentido, ou se não fez, de algum jeito ela me convenceu pra caralho de que fazia.

A mulher amada é aquela que tem o dom de te convencer que urubu é loro.

Ela faz água com folhinhas hortelã pra tomar em dias de calor. Sim, é sério. Água com hortelã. E acho tudo isso um charme, bonito de encher os olhos d’água.

É fácil falar que fazer amor é broxante quando seu conhecimento sexual é tão limitado a ponto de você não conseguir reparar em todo o tesão que existe nisso. Vai por mim, fazer amor é foda! Uma mistura explosiva de ternura e perversão. Salomão sabia mesmo das coisas, constato.

Não tem a ver com marasmo, com monotonia. Não me venha colocar palavras na minha boca (se quiser colocar algo nela, que seja cerveja, ok?). Trata-se de empatia, de poder ver o mundo através dos olhos de quem não pensa igual a você e de embarcar nessa. Alguma vez já experimentou tentar usar um óculos que não fosse o seu? Então, é quase isso.

Fica tudo tão fácil quando vejo ela sorrir, quando me conta do seu dia e pergunta sobre o meu. Às vezes me pego pensando se estou ficando velho e por isso ando querendo sossegar o facho, ser um daqueles caras lendo jornal na mesa em um comercial de margarina, mas basta cinco minutos de conversa entre nós dois e fica claro que não, que na verdade é só o começo de uma aventura em dupla, só o primeiro dia do restante dos nossos dias.

Toda vez que acordo ao lado dela eu me sinto num comercial de Doriana e, pela primeira vez na vida, não sinto vontade alguma de correr.

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Jocê Rodrigues
É escritor, editor e repórter responsável pelo conteúdo jornalístico do CONTI outra.



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