A juventude dourada do rádio de pilha

Por Claudia Antunes
Os dias estavam quentes e ensolarados, enquanto o verão fervilhava no Rio. Ipanema era o reduto fashion do planeta, com suas boutiques psicodélicas. A ‘Aniki Bobó’ e a ‘Bibba’, dois expoentes da moda, recendiam a San Francisco. A cidade americana foi o berço das primeiras manifestações ‘flower power’, o movimento pacífico que transmutou os cabelos e as cabeças da geração 60’s.
Éramos meninas de corpos dourados, que frequentavam a praia inspiradora de inúmeras canções. Havia um jeito próprio de se expor ao sol, deitadas sobre toalhas enormes com estampas coloridas, óleo de bronzear ao lado e o revolucionário rádio de pilha. Era pequeno, envolto em capa de couro, com o dial no 860, a Rádio Mundial. Nela, reinava soberano, o saudoso Big Boy. Nada do que fazíamos era planejado. Tudo acontecia.

Como toda adolescente, eu tinha a roupa que trazia a sorte, a sandália que arrasava nas festinhas do prédio e os cabelos com tons suspeitos de água oxigenada de 20 volumes, jogada com muita parcimônia, para não me alourar de repente.
O vestido das conquistas era de tecido de colchão, sério! Fundo azul índigo com flores brancas e uma gota vazada e audaciosa que se estendia pelo decote. Justo no corpo, modelagem perfeita da ‘Truc’, outra das grandes grifes do bairro.
O Centro Comercial de Copacabana, o pai dos shoppings, era a referência para as sandálias coloridas e rasteiras, feitas sob medida. Lá ficava a loja, uma desordem total! Garotas circulando no meio de quilos de couro, procurando solados para entregar aos sapateiros que tinham as mãos sujas de graxa e tinta, mas uma tremenda boa vontade. Acho que ventilador era artigo raro, porque o ambiente esturricava!
O namoro também tinha suas performances. A ‘princesa’ usava no próprio braço, a pulseira de prata com placa e corrente, de seu ‘pão’! Ninguém dizia ‘gato’, palavra que Erasmo Carlos, muito mais vanguardista do que o Rei, antecipou em versão feminina, na executadíssima ‘Gatinha Manhosa’.
Atraídas pela beleza estética masculina, não íamos ao cinema – em grande parte – pela qualidade do filme. Somente isto implicou em assistir a ‘Help!’, com os Beatles, entrando na sessão das duas e saindo às 10 da noite, enquanto ficou em cartaz, no Bruni-Ipanema. Estávamos atordoadas pela visão de John, Paul, George e Ringo de jeans, óculos escuros e em Cinemascope. Na trama anterior, ‘A hard day’s night’ – que considero uma obra de arte -, eles vestiam os comportados terninhos, no clássico P&B.
Os Beatles foram e ainda são, na minha vida, uma fonte que jorra infinitamente. Não posso falar da banda só de passagem. A sensação desconfortável de estar subtraindo dados e fatos, talvez explique um pouco da menina que ainda resiste em mim.

Claudia Antunes é carioca, jornalista e já trabalhou em jornais como Jornal da Tarde (SP), O Estado de S. Paulo, Jornal do Commercio e Tribuna da Imprensa e nas Revistas Manchete, Fatos & Fotos e Visão (atual Isto É). Jardim Botânico do Rio de Janeiro e INEA.

Vídeo sugestão: San Francisco, Scott Mckenzie

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