A caligrafia da chuva

Quando chove – entre nós – é sinal de um milagre que se avizinha, diz-se; e hoje choveu bastante. Cá dentro reverbera o murmúrio da chuva; seus traços oblíquos e líquidos, o seu falar intermitente. É pois o fio da sua húmida caligrafia, o redesenhar do destino a cada badalada do seu sino. A metamorfose, o renovar, o vivificar; é tudo quanto se espera depois da chuva preencher o chão com a sua escrita.

A chuva representa em muito a esperança, seja de uma boa colheita ou de uma sementeira promissora. As pessoas campestres – como eu – gostam da chuva, para além de atenuar o calor que por aqui se faz e humedecer a relva para os pastos, a chuva é por si só um sinal, um símbolo de fertilidade e de fartura. Um sentimento de alívio ressoa sempre que chove: haverá, de certeza, água para um, dois ou três dias, e os banhos não mais serão austeros, e as flores envoltas ao quintal libertar-se-ão da esquálida magreza imposta pelos fulminantes raios do sol.

[quote_box_left]Um sentimento de alívio ressoa sempre que chove[/quote_box_left]

A chuva só deixa de ser boa quando inunda tudo em volta, quando chove torrencialmente ou quando faz transbordar os rios, deslizando a terra ou quando arrasa os vales, derruba as pontes e viadutos. Aí sim, causa tristeza e torna-se um bem desnecessário! Aliás, diz o ditado que tudo em excesso faz mal.

Há vezes que ocorre cruzarmo-nos com um parente ou um amigo que o tempo há tanto nos separara e dizemos convictos “hoje vai chover”, porém não é a chuva – fenómeno físico ou natural – que esperamos mas queremos apenas enfatizar o encontro, o seu lado “miraculoso”.

Conota-se com isso a falta da chuva, a saudade, a secura que é isso, e traduzimos, portanto, na falta que esse parente ou amigo nos faz.
Hoje choveu muito, eu dizia, e um cinzento esbateu-se por dentro, tão baço quanto era o próprio dia. Quanto era, digo, porque, súbito, o telefone tocou:

– Alô, quem fala?

E uma lâmpada acendeu a vela memorial de tempos idos, tempo antigo, em que o amor tinha outro sabor.

Fosforesceu o dia em mim, e de repente uma vontade de me molhar, de dançar à chuva.

A chuva fez tanto sentido e, enquanto pingava, era como se o fizesse no tecto do meu coração. Uma pessoa que eu tanto quero bem sem saber que a mim ela quisesse também, ligou-me e isso era tudo o que faltava para o meu dia explodir de beleza, nesses dias que só a nostalgia e velhas lembranças dão sentido ao meu viver.

Álvaro Taruma, escritor moçambicano

O texto acima foi publicado na CONTI outra com autorização do autor.

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